Congresso da Abag discute integração de agro e indústria
Evento discute desafios do setor e demandas para o próximo governo com autoridades políticas e líderes do segmento

A 25ª edição do Congresso Brasileiro do Agronegócio, promovida pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), reúne nesta segunda-feira (10), em São Paulo, representantes do governo, da oposição, lideranças de entidades do setor e executivos de empresas.
O encontro ocorre em um momento de desafios para o agronegócio, marcado por juros elevados, dificuldades de acesso ao crédito, aumento dos custos de produção e instabilidade no cenário internacional.
A cerimônia de abertura contou com a presença do vice-presidente da República, Geraldo Alckmin; do ministro da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento, André de Paula; da senadora Tereza Cristina (PP-MS); e do deputado federal Arnaldo Jardim, vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
O presidente da ABAG, Ingo Pögler, destacou a intenção de um dialogo permanente com congresso para a discussão dos desafios presentes e futuros do país. Durante a abertura, Pögler entregou a Alckmin um documento elaborado a partir de uma pesquisa realizada pela ABAG com seus associados, com demandas do agronegócio aos governantes e candidatos à Presidência da República nas eleições deste ano.
Segundo o executivo, o setor não busca favores ou benefícios, mas condições para investir, crescer e produzir com segurança jurídica.
O tema escolhido para esta edição foi “Agro & Indústria – Integrando e Transformando o Brasil”. Ao longo do dia, painéis e debates discutem formas de ampliar a integração entre os dois setores e melhorar a competitividade do agronegócio brasileiro.
Entre os pontos levantados está a possibilidade de ampliar, no campo, a adoção de práticas já difundidas pela indústria, como o conceito de produção just in time, buscando maior eficiência e melhor aproveitamento do potencial da agricultura tropical brasileira.
Governo e oposição dividem espaço no congresso
O congresso também foi marcado pela presença conjunta de representantes de diferentes correntes políticas. Representando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, Geraldo Melo Filho, destacou a importância de São Paulo para o agronegócio nacional e ressaltou a atuação conjunta entre os governos estadual e federal em pautas de interesse do setor.
O tom amistoso contrastou com o acirramento político observado na noite anterior, durante o debate entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad (PT), candidatos ao governo de São Paulo. No congresso, as manifestações reforçaram a intenção da ABAG de manter um canal de diálogo com diferentes forças políticas, independentemente de quem estará à frente dos governos a partir de 2027.
Representando a Frente Parlamentar da Agropecuária, Arnaldo Jardim também destacou a presença e a atuação de Alckmin e do ministro André de Paula.
O deputado lembrou que, na edição anterior do congresso, o debate esteve concentrado na COP30 e na capacidade do Brasil de conciliar produção agropecuária e preservação ambiental. Neste ano, segundo Jardim, o cenário internacional trouxe novos desafios, especialmente após a adoção de tarifas pelos Estados Unidos.
Ele destacou que produtos importantes da pauta exportadora brasileira ficaram fora da taxação, como carnes, laranja e café. Ao mesmo tempo, chamou atenção para a situação enfrentada pelos produtores, diante da combinação de preços mais baixos das commodities e aumento dos custos de produção, especialmente dos fertilizantes.
Tereza Cristina cobra plano de longo prazo para o agro
A senadora Tereza Cristina defendeu que o próximo governo assuma um compromisso de longo prazo com o agronegócio e estabeleça políticas de Estado, e não apenas medidas pontuais de governo.
Como exemplo, citou o planejamento de longo prazo adotado pela China para a expansão de sua agropecuária, com ações projetadas até 2050.
“Nós temos que exigir que o agronegócio no próximo governo, seja quem for eleito, seja priorizado como um negócio que vem dando certo e é o motor da economia. Precisamos de políticas de Estado, e não discutir políticas de governo, porque elas são pontuais. Nós precisamos de previsibilidade e segurança jurídica. Onde é que vamos estar em 2050?”
A senadora destacou o crescimento de 11,7% do PIB agropecuário em 2025 e a expectativa de uma safra de 358 milhões de toneladas. Para ela, porém, os números positivos escondem uma série de dificuldades enfrentadas pelos produtores, em um cenário que classificou como uma “tempestade perfeita”.
Entre os fatores de pressão estão os conflitos internacionais no Oriente Médio, que impactam o mercado de insumos. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, o que aumenta a importância de políticas voltadas à redução da dependência externa, como o Plano Nacional de Fertilizantes (ProFert).
Segundo a senadora, entre fevereiro e abril, produtos essenciais para a produção agrícola registraram fortes altas: a ureia subiu 60%, o fosfato avançou 30% e o diesel, 35%, enquanto os preços das commodities permanecem abaixo dos níveis observados em anos anteriores.
Crédito rural e seguro preocupam setor
Outro ponto de preocupação é o crédito rural. Com a taxa Selic em 14% ao ano e juros finais de financiamento entre 18% e 20%, o crédito rural teria recuado 17%.
De uma carteira estimada em R$ 880 bilhões em crédito rural, cerca de R$ 180 bilhões estariam em situação de estresse financeiro. Embora medidas provisórias recentes tenham proporcionado algum alívio aos produtores, Tereza Cristina afirmou que uma parcela significativa ainda precisa renegociar suas dívidas.
Para a senadora, a criação de um modelo mais eficiente de seguro rural é urgente. O instrumento, segundo ela, ainda atende menos de 3% da produção nacional e não oferece proteção suficiente diante do aumento dos riscos climáticos.
Em um cenário de maior incerteza meteorológica, a parlamentar defendeu que o seguro rural seja tratado como uma política estruturante de gestão de riscos, e não como uma medida emergencial.
Tereza Cristina cobrou diretamente do ministro da Agricultura e do vice-presidente Geraldo Alckmin maior apoio para o fortalecimento do mecanismo.
Safristas
A senadora também criticou a demora na regulamentação da contratação de trabalhadores safristas, modelo considerado importante para atividades que dependem de mão de obra temporária.
Ao se dirigir ao ministro André de Paula, Tereza Cristina defendeu a aprovação definitiva das mudanças previstas para a contratação desses trabalhadores.
“Nós temos um projeto aprovado na Câmara e no Senado que precisa ser sancionado. Foi sancionado com vetos a derrubar. O projeto dos safristas é fundamental para que nossa agricultura funcione. Não podemos contratar sem ter carteira assinada. E o que fazer com essa mão de obra itinerante?”
Para a senadora, a regulamentação é necessária para dar segurança jurídica tanto aos produtores quanto aos trabalhadores e permitir que o setor tenha acesso à mão de obra necessária durante os períodos de safra.
Ao longo do congresso, a discussão sobre crédito, seguro rural, custos de produção, comércio internacional e segurança jurídica deve ocupar espaço central nos debates sobre o futuro do agronegócio brasileiro.


