CNN Talks Agro: Crédito rural deve ser menos dependente do Plano Safra
Especialistas defendem previsibilidade e mais instrumentos privados para proteção do produtor
O agro vive um momento delicado após anos de forte expansão, com aumento do endividamento, redução de margens e impactos climáticos sobre a produção. Neste cenário duas frentes de atuação são urgentes: renegociação de dívidas e avanço do seguro rural. A avaliação é de Arnaldo Jardim, presidente da Comissão Especial da Transição Energética e Produção de Hidrogênio Verde durante participação do CNN Talks Agro, realizado nesta segunda-feira (27) durante a Agrishow, que debateu o tema “Financiamento Estratégico: Crédito, Clima e Geopolítica”.
Para ele, o congresso Nacional tem concentrado esforços em medidas para reduzir a insegurança no financiamento do agronegócio, com prioridade para o fortalecimento do seguro rural, a proteção de títulos agrícolas como LCA, LCI e CRI e a ampliação de fontes permanentes de crédito para o setor. O tema, segundo ele, ganhou destaque durante debate na Tecnoshow Comigo, em Goiás, reunindo representantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), Banco do Brasil e Ministério do Desenvolvimento Agrário.
“O setor teve crescimento importante, mas agora enfrenta juros altos, margens menores e dificuldades climáticas. Precisamos permitir que produtores, pessoas físicas e jurídicas, possam renegociar seus passivos e continuar produzindo”, afirmou.
JArdim destacou ainda a baixa cobertura atual do seguro no campo. De uma área plantada próxima de 90 milhões de hectares, apenas cerca de 7,5 milhões contam com cobertura securitária. “O Brasil não pode continuar convivendo com esse nível de proteção tão reduzido”, disse.
No crédito rural, Felipe Duch, Superintendente Private do Banco do Brasil, reforçou que o Plano Safra segue relevante, especialmente para linhas subsidiadas como Pronaf e Moderfrota, mas destacou o crescimento do mercado de capitais como fonte complementar de recursos ao produtor. Segundo ele, o banco responde por mais da metade do crédito agropecuário no país.
A instituição também aposta em linhas ligadas à sustentabilidade. Entre os instrumentos citados estão CPR Verde, programas para recuperação de áreas degradadas e emissão recente de um título internacional voltado à preservação ambiental e recuperação de bacias hidrográficas.
Agricultura familiar
Para a agricultura familiar, Vivian Libório de Almeida, diretora de Inovação para Produção Familiar e Transição Agroecológica do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, destacou linhas específicas dentro do Pronaf com foco em práticas sustentáveis. Entre elas estão o Pronaf Agroecologia, com juros a partir de 2% ao ano, além de modalidades voltadas à bioeconomia, mulheres, jovens e recuperação de solos.
Na avaliação dos especialistas o futuro do crédito rural passa por um modelo menos dependente do Plano Safra anual, com mais previsibilidade, instrumentos privados de financiamento e proteção ao produtor diante de riscos climáticos e de mercado.
O avanço dos biocombustíveis foi apontado como estratégico para fortalecer a soberania energética do Brasil, atrair investimentos e ampliar a presença do país na transição global para fontes renováveis. Durante o debate, o deputado Arnaldo Jardim destacou que Estados Unidos e União Europeia também caminham para elevar a mistura de etanol nos combustíveis, reforçando uma tendência internacional já consolidada no Brasil.
Segundo ele, o governo deve analisar em maio a proposta de elevar a mistura de etanol na gasolina de 30% para 32%, além da expectativa de aumento do biodiesel no diesel de 15% para 17%. Para o parlamentar, o país demonstra que é possível expandir os biocombustíveis sem comprometer a segurança alimentar, graças ao uso de subprodutos que também abastecem cadeias de proteína animal.
Neste contexto, Vivian Libório destacou que a agricultura familiar tem papel crescente nesse mercado. Atualmente, mais de 60 mil famílias participam do Selo Biocombustível Social, movimentando cerca de R$ 6 bilhões por ano. O programa amplia acesso a crédito, assistência técnica e mercado para pequenos produtores.
Ela também ressaltou novas oportunidades em combustíveis avançados, como o SAF (combustível sustentável de aviação), com experiências que utilizam resíduos como caroço de açaí. A avaliação é que a inclusão da agricultura familiar na transição energética será fundamental para unir sustentabilidade, geração de renda e segurança energética no país.


