Crédito leva água a produtores do Nordeste, mas dívida é desafio

Enquanto empréstimo é herói, dívida pode ser vilã para produtores – especialmente num cenário de juros altos

Danilo Moliterno e Carol Raciunas, da CNN Brasil, Brasília e São Paulo
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A escassez de chuvas no Norte da Bahia faz dos equipamentos de irrigação peça fundamental para qualquer agricultor da região. Essas soluções, contudo, custam milhares de reais. Assim, o pequeno produtor só tem uma saída: o crédito.

No município de Jacobina, José de Souza cultiva amendoim, milho, entre outras culturas. Hoje ele está ansioso pela colheita e pelas vendas nas festas juninas – na tentativa de aproveitar ao máximo esse período.

Para garantir isso, o produtor pegou um empréstimo e instalou novos equipamentos para levar água a sua plantação.

“Essa linha de crédito serviu para investir no reservatório para ampliar a quantidade de água da propriedade e distribuir para as lavouras. Vivemos num lugar em que o período de chuva é muito curto. E precisa dar uma melhorada no sistema de irrigação”, indica.

“E a maior importância da cultura do amendoim é que a gente utiliza da mão-de-obra da comunidade. Sempre damos oportunidades, por ser uma cultura que precisa de mão-de-obra terceirizada. Então gera emprego e renda para a comunidade”, completa.

O BNB (Banco do Nordeste) conta com um programa voltado ao microcrédito rural, o Agroamigo. O público-alvo é especialmente agricultores familiares – caso de José.

No ano passado, o programa concedeu R$ 2,2 bilhões de reais em crédito na Bahia, sendo que R$ 275 milhões foram destinados a obras de irrigação.

Em toda a área de cobertura da instituição, foram emprestados R$ 9,5 bilhões em 2025. Certa de R$ 1 bilhão foi direcionado à modalidade voltada à água.

Nessa história, enquanto o empréstimo aparece como “herói”, a dívida pode ser “vilã” – especialmente em um contexto de juros altos, que dificultam a quitação da obrigação.

No ano passado, a inadimplência no crédito rural bateu recorde, ficando em 6,5%, segundo dados do BC (Banco Central). O cenário é ainda mais delicado para os pequenos produtores, que têm caixa e margem de manobra menores que o agronegócio.

O pagamento da dívida é uma das preocupações de Vanilde Xavier, que mora e produz em Seabra, na região da chapada diamantina, na Bahia. A agricultora cultiva morango e pegou empréstimo para reforma de açudes e outras obras de irrigação.

A plantação, no entanto, ainda não rendeu o esperado.

“Já faz uns 11 anos que eu planto morango. Mas neste ano, os morangos não estão produzindo bem. Eu peguei 50 mil reais e plantei 10 mil pés. Está dando para levar, mas não está produzindo como a gente esperava”, afirmou.

Para especialistas, a saída do dilema está em oferecer condições de prazo e carência adequados – além de atrelados ao ciclo agrícola. Também é preciso encontrar soluções capazes de driblar a Selic e oferecer taxas mais baixas ao pequeno produtor.

Quem também comenta o cenário é Luiz Sérgio Farias Machado, superintendente de microfinança rural do BNB. O programa agroamigo têm inadimplência de apenas 2,2%.

"Como nós estamos no Nordeste, e no Nordeste nós temos mais de 60% da nossa área no semiárido, é impossível que qualquer tipo de produção seja feita sem o armazenamento da água. Então são necessários programas para financiar estruturas hídricas, que possibilitem pequenas irrigações e que possam servir também aos animais no período de estiagem."