El Niño provoca restrição hídrica no Norte e pode afetar safra e logística

Previsão de chuvas abaixo da média até dezembro preocupa implantação de lavouras e níveis de rios usados no escoamento da produção

Gabriella Weiss, da CNN Brasil, São Paulo
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A restrição hídrica deve continuar no Norte do Brasil nos próximos meses e pode afetar tanto a implantação da safra 2026/27 quanto a navegação em rios usados para o transporte de cargas agrícolas. O relatório integrado de órgãos federais aponta previsão de chuvas abaixo da média e temperaturas acima da média em grande parte da região entre outubro e dezembro.

As bacias dos rios Branco e Negro concentram o principal ponto de atenção no cenário hidrológico amazônico. Segundo o documento, os níveis dos rios estão baixos nessas áreas, combinados a déficits de precipitação e à previsão de novas chuvas abaixo da média. Em Roraima, o quadro pode se agravar ao longo do trimestre.

No Acre e no Amazonas, o relatório registra que a seca avançou rapidamente em agosto e que já há relatos de municípios com dificuldades para captar água e com comprometimento da navegação. A situação é relevante para a logística da região, já que os rios amazônicos são utilizados no transporte de cargas e alimentos e no escoamento de produtos agrícolas para os terminais do Arco Norte.

O documento, no entanto, não aponta uma condição hidrológica excepcionalmente baixa e generalizada em toda a Amazônia, como ocorreu em 2023 e 2024. Nos principais trechos dos rios Amazonas/Solimões e Tapajós, a projeção é de continuidade da vazante dentro da faixa histórica, embora os níveis possam permanecer baixos caso a recuperação das chuvas no início da estação chuvosa fique abaixo do esperado.

No rio Madeira, as condições atuais são consideradas relativamente mais favoráveis, mas a recuperação dos níveis também dependerá da evolução das chuvas nos próximos meses.

Impacto sobre a safra

No campo, a combinação de chuva abaixo da média e temperaturas elevadas deve aumentar o déficit hídrico no centro-norte do país. O relatório aponta riscos para culturas de sequeiro, pastagens e disponibilidade de água para os rebanhos.

No Norte, a previsão indica restrição hídrica persistente em Roraima, Amapá, Baixo Amazonas e nordeste do Pará. Nessas áreas, a falta de chuva pode dificultar a semeadura da soja e aumentar o risco de incêndios em áreas agrícolas e de pastagens.

Em contrapartida, a umidade ainda presente no solo tende a beneficiar o cultivo de açaí e a agricultura familiar no norte e sudoeste do Amazonas. A partir de novembro, uma possível recuperação hídrica também pode favorecer a implantação da safra de verão em Rondônia e no sul do Pará.

No Centro-Oeste, o cenário é mais concentrado no centro-norte de Mato Grosso, norte de Goiás e Distrito Federal. A previsão de chuvas abaixo da média, combinada às temperaturas elevadas, pode reduzir o armazenamento de água no solo e dificultar a semeadura e o estabelecimento de soja, milho e feijão de primeira safra.

A partir de novembro, a expectativa é de recuperação dos níveis de água no solo em parte da região, favorecendo lavouras e pastagens. Em dezembro, porém, o excesso de umidade em algumas áreas pode aumentar o risco de doenças fúngicas e limitar operações de pulverização.

Seca avança em municípios

O quadro de seca também se intensificou. De acordo com o Índice Integrado de Seca do Cemaden, referente a setembro, 197 municípios estavam classificados em condição de seca severa, 44 a mais do que em agosto. Outros 24 municípios estavam em seca extrema, ante quatro no mês anterior. O avanço ocorreu principalmente no Amazonas, Bahia, Amapá, Alagoas e Sergipe.

No Nordeste, 16% da região apresenta seca grave, segundo o Monitor de Secas. A situação também tem impactos sobre a disponibilidade de água e a agricultura, especialmente no semiárido. A previsão de temperaturas acima da média pode acelerar a perda de umidade do solo.

Na região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a irregularidade das chuvas pode dificultar o estabelecimento da soja. No oeste da Bahia, uma recuperação do armazenamento de água no solo em dezembro pode favorecer o desenvolvimento das lavouras.

Sul terá chuvas acima da média

Enquanto o centro-norte enfrenta maior risco de restrição hídrica, o Sul deve registrar chuvas acima da média no trimestre. A maior disponibilidade de água tende a favorecer o milho de primeira safra, mas o excesso de umidade pode aumentar a incidência de doenças no trigo, atrasar a colheita e reduzir a qualidade dos grãos no Paraná.

O excesso de chuva também pode dificultar a semeadura da soja e afetar o planejamento do milho de segunda safra.

No cenário hidrológico, os rios do Sul permanecem em níveis elevados. O relatório registra episódios de inundação em bacias do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina e aponta risco de continuidade de níveis altos em algumas áreas.

Para o conjunto do país, a previsão indica vazões abaixo da média em grande parte das bacias até dezembro, com atenção especial aos rios Branco e Negro, áreas do Norte e Nordeste e algumas cabeceiras do Centro-Oeste. No Sul, no Sudeste e no alto rio Paraguai, a tendência é oposta, com maior probabilidade de vazões acima da média e risco de cheias.