Excesso de oferta de leite adia recuperação dos preços até o fim de 2026

Produção mundial em ritmo elevado, demanda mais fraca e margens pressionadas devem manter o mercado de leite em ajuste ao longo do terceiro trimestre

Andressa Simão, da CNN Brasil, São Paulo
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O mercado global de leite e derivados deve atravessar um período de maior pressão ao longo do terceiro trimestre de 2026, diante de um desequilíbrio entre oferta e demanda. A avaliação faz parte do relatório Perspectivas 2026, da StoneX, elaborado a partir das análises de Inteligência de Mercado lideradas por Nate Donnay, que apontam que a recuperação dos preços dos lácteos deve ser mais lenta do que o esperado.

No fim de 2025, a oferta global avançou cerca de 5,5% na comparação anual, ritmo considerado elevado para o histórico do setor. Mesmo com a queda das cotações internacionais, os produtores não reduziram rapidamente a produção, movimento influenciado principalmente pela redução nos custos de alimentação animal e pela expansão da capacidade de processamento.

Segundo a análise da StoneX, esse excesso de oferta deve prolongar o período de ajuste e atrasar o reequilíbrio do mercado para o fim de 2026. Com mais leite disponível, os preços internacionais tendem a permanecer pressionados durante boa parte do terceiro trimestre.

Entre os maiores fornecedores mundiais, os Estados Unidos já sentem os efeitos desse cenário. A queda nos preços de produtos como manteiga e queijo reduziu as margens dos produtores norte-americanos para níveis abaixo do ponto de equilíbrio, aumentando a pressão sobre a rentabilidade das fazendas.

Na União Europeia, os preços do leite também recuaram de forma significativa, o que deve impactar os pagamentos recebidos pelos produtores nos próximos meses. Apesar disso, um ciclo mais tardio de partos deve manter a produção europeia em expansão até meados de 2026, dificultando uma redução mais rápida da oferta.

Na Nova Zelândia, principal exportadora mundial de lácteos, a produção apresentou crescimento de 4,2% nos primeiros meses da temporada. O aumento ocorreu mesmo diante de desafios climáticos e foi acompanhado por um uso recorde de palm kernel expeller, coproduto do processamento do óleo de palma utilizado na alimentação dos animais.

O movimento indica que os produtores neozelandeses buscaram sustentar os volumes produzidos, contribuindo para manter o mercado global abastecido.

Cenário no Brasil

Para o mercado brasileiro, o ambiente externo influencia principalmente as perspectivas de preços e oportunidades de exportação. A maior disponibilidade global de leite tende a limitar uma recuperação mais consistente das cotações internacionais, enquanto produtores seguem atentos aos custos de produção e ao comportamento do consumo interno.

A expectativa da StoneX é que o mercado passe por uma fase prolongada de ajuste, com a retomada do equilíbrio entre oferta e demanda ocorrendo apenas mais próximo do encerramento de 2026. Até lá, o setor deve conviver com preços pressionados e margens mais apertadas para produtores em diferentes regiões do mundo.

Demanda perde força

Do lado do consumo, o cenário também é de desaceleração já que  a demanda por queijo na Europa, que vinha sendo um dos principais pontos de sustentação do mercado, perdeu força nos últimos meses. O mesmo movimento foi observado para produtos como manteiga e gordura anidra de leite, conhecida pela sigla AMF.

Outro sinal de menor dinamismo está no mercado de leite em pó desnatado. As importações globais do produto apresentam tendência de queda há dois anos, indicando estoques mais confortáveis ou menor necessidade de compras por parte dos principais importadores.

Com consumidores mais cautelosos e estoques elevados, a demanda global não tem avançado no mesmo ritmo da produção, ampliando o desequilíbrio entre oferta e consumo.

Tensões no Oriente Médio

Além dos fundamentos de mercado, o setor também acompanha os impactos geopolíticos sobre as cadeias de abastecimento. De acordo com a StoneX, aproximadamente 6% do comércio internacional de lácteos passa pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica afetada pelas tensões envolvendo o Irã.

A instabilidade na região elevou a complexidade logística, com aumento de custos relacionados a fretes e seguros marítimos. O impacto já aparece principalmente nos países do Golfo Pérsico, onde o consumo de lácteos foi afetado pela maior dificuldade operacional.

Por outro lado, a interrupção das exportações iranianas de leite em pó retirou parte da oferta disponível no mercado internacional, funcionando como um fator de compensação parcial diante da redução da demanda regional.

https://www.cnnbrasil.com.br/agro/mercado-de-leite-no-brasil-recuperacao-gradual-de-precos-em-2026/