StoneX lança ferramenta inédita para dar previsibilidade ao setor lácteo

Estrutura desenvolvida em parceria com o Cepea e com apoio da CNA vai permitir contratos personalizados para produtores, cooperativas e indústrias do setor lácteo

Fernanda Pressinott, Cristiane Noberto, da CNN Brasil, Brasília
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A cadeia brasileira de lácteos passará a contar, pela primeira vez, com uma estrutura de hedge desenhada especificamente para o mercado nacional. A ferramenta foi lançada nesta terça-feira (13) pela StoneX, em parceria com o Cepea (Centro de Estudos em Economia Aplicada) USP e com apoio da CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, em uma tentativa de ampliar a previsibilidade de preços e reduzir a exposição à volatilidade que historicamente marca o setor leiteiro brasileiro.

O instrumento funcionará no modelo OTC (over the counter), mais conhecido como mercado de balcão, em que a StoneX atua como intermediadora entre compradores e vendedores.

Mas diferentemente de contratos futuros padronizados negociados em bolsa, o modelo permite operações customizadas para produtores, cooperativas, indústrias, tradings e empresas expostas às oscilações de preços do leite e derivados.

“O produtor produz hoje sem saber quanto ele vai receber pela sua produção ao longo daquele mês. Isso gera uma insegurança que acaba limitando os investimentos na atividade justamente por essa incerteza de mercado. Hoje, quando você tem uma receita conhecida pela sua produção e o controle dos custos de produção, você consegue conhecer a sua capacidade de pagamento e com isso alocar investimentos que vão te trazer ganhos de escala e aumento na sua eficiência produtiva", afirmou Guilherme Souza Dias, assessor técnico pecuária de leite no sistema CNA.

Para Marianne Tufani, gerente de riscos da StoneX Leite Brasil, o setor de lácteos foi um dos últimos grandes segmentos de commodities a incorporar ferramentas estruturadas de gestão de risco. Segundo ela, a crescente influência do mercado internacional sobre os preços domésticos tornou mais difícil para empresas e produtores planejarem margens e investimentos de longo prazo.

Mas ela destaca que é preciso conhecer bem a ferramenta para não correr risco de fazer especulação.

"O produtor precisa entender que a ferramenta não é para ganhar dinheiro, e sim proteger a sua margem. Quando ele entende qual é a margem que ele quer ao longo do ano, ele consegue vender antecipadamente e entregar o seu leite sem ficar dependente do preço futuro. Então essa previsibilidade é o que a ferramenta vai permitir", frisou.

A nova estrutura utilizará indicadores do Cepea como referência para liquidação financeira dos contratos. Na fase inicial, estarão disponíveis operações vinculadas a quatro produtos: leite UHT, queijo muçarela, leite em pó integral industrial e leite ao produtor.

Os contratos terão liquidação mensal e poderão ser negociados em prazos de até 12 meses. O leite UHT e a muçarela utilizarão como referência indicadores da região Sudeste; o leite em pó integral terá base São Paulo; e o leite ao produtor será indexado à média Brasil calculada pelo Cepea.

Os volumes-padrão definidos para os contratos são:

  • de 40 mil litros para leite ao produtor,
  • 4 mil litros para leite UHT,
  • 4 mil quilos de queijo muçarela
  • 5 toneladas para leite em pó integral industrial.

“Como se trata de um mercado OTC, os contratos também poderão ser fracionados conforme a necessidade das partes”, explica Marianne.

A StoneX é uma instituição financeira que atua em mais de 20 países em mais de 40 bolsas de derivativos. No ano fiscal de 2025, a companhia registrou receita operacional de US$ 4,1 bilhões e volume negociado de US$ 5,3 trilhões. A empresa afirma concentrar cerca de 60% dos contratos globais de hedge em lácteos, mercado no qual atua há mais de 30 anos.

Hoje, algumas multinacionais do setor já utilizam instrumentos de hedge em bolsas internacionais, principalmente em Chicago, Europa e Ásia. No entanto, segundo a StoneX, essas operações normalmente são estruturadas de forma global e apresentam limitações de correlação com a dinâmica específica do mercado brasileiro.

A avaliação da empresa é que o uso de indicadores domésticos tende a aumentar a aderência dos contratos à realidade do setor nacional. A StoneX afirma que a estrutura lançada no Brasil replica um modelo já consolidado em mercados internacionais de lácteos.

A expectativa inicial é atrair grandes indústrias e cooperativas, que devem fornecer liquidez às primeiras operações. A empresa também aposta, no médio prazo, na entrada de bancos, fundos e investidores financeiros, à medida que o mercado ganhe escala.

Para Jônadan Ma, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, a iniciativa poderá ajudar produtores a melhorar o planejamento financeiro e reduzir a imprevisibilidade da atividade.

“É uma ferramenta que já existe nos principais países produtores e que chega ao Brasil para modernizar o mercado de leite”, afirma.

Segundo ele, a CNA formou em 2024 um grupo de trabalho com produtores, cooperativas, indústrias e especialistas para discutir a viabilidade da ferramenta e sua implementação no mercado brasileiro.

A pesquisadora do Cepea, Natália Grigol, afirma que a cadeia leiteira passou por transformações profundas nas últimas décadas, com aumento da produtividade, intensificação tecnológica e maior complexidade concorrencial, enquanto a comercialização continuou marcada por volatilidade e incertezas. “O hedge surge como uma ferramenta essencial para transformar incerteza em previsibilidade”, disse.

“O mercado é muito marcado por incerteza e uma das pontas-chave é a questão realmente da comercialização, pelo fato da gente não conseguir adiantar muito a questão do preço. Você tem uma produção de ciclo longo, mas ao mesmo tempo uma produção diária. Então isso traz uma complexidade muito grande para o setor e aumenta as incertezas”, pontuou a especialista.

Além da operação de hedge, os clientes também terão acesso a suporte consultivo da StoneX, com análises de mercado, definição de estratégias e acompanhamento contínuo das operações.

Para os pecuaristas do ramo, a ferramenta chega como uma oportunidade de gerenciar melhor os ganhos.

“Hoje a pior incerteza que a gente tem no campo do leite é que você vende o produto e não sabe quanto vai receber. Então isso é uma ferramenta que com certeza vai nos ajudar muito para tomar decisões futuras. Você trava o seu custo, sabe por quanto pode vender a mercadoria e deixa de trabalhar no escuro”, afirmou Luiz Avelar,  produtor rural de leite da Fazenda Campo Alegre, em Patos de Minas (MG).