Exportadores minimizam investigação dos EUA e descartam impacto imediato

Setor avalia que exclusão de carne bovina das tarifas propostas pelos EUA reflete dependência americana do produto brasileiro, além de investigação ter componente político

Cristiane Noberto, da CNN Brasil, Brasília
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A utilização da carne bovina brasileira como um dos principais exemplos da investigação sobre trabalho forçado aberta pelos Estados Unidos não gerou preocupação imediata entre exportadores do setor.

A apuração conduzida pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) sugere a aplicação de sobretaxas no caso de trabalho forçado em cadeias produtivas de países investigados, que vão de 10% a 12,5%. Mas a carne bovina brasileira ficou de fora também dessa lista de produtos dos 60 países investigados.

Para o setor, essa exclusão demonstra a importância do produto brasileiro para a indústria de alimentos dos EUA, que hoje vivencia uma redução de rebanho histórica e precisa importar carne.

Exportadores ouvidos pela CNN em condição de reserva avaliam que eventuais restrições comerciais contra o produto teriam potencial para elevar custos da indústria americana e pressionar os preços ao consumidor nos Estados Unidos.

A leitura é que a proposta possui forte componente político e faz parte de um movimento mais amplo para tentar conter o avanço da competitividade do agronegócio brasileiro em mercados internacionais, como a China, onde o Brasil colocou a maior parte das exportações mundiais no ano passado.

Apesar das críticas, praticamente toda a cadeia da carne bovina ficou de fora da lista de produtos que poderiam ser atingidos pelas medidas propostas pelo governo americano, com o novo tarifaço de 25%.

O anexo de exceções inclui cortes frescos, refrigerados e congelados, carnes com e sem osso, miúdos bovinos e diversos produtos processados.

Na avaliação de fontes ligadas às exportações, a decisão está diretamente relacionada à situação da pecuária americana.

Os Estados Unidos atravessam um período de redução do rebanho bovino, que atingiu os menores níveis em décadas, enquanto a demanda doméstica permanece elevada.

Nesse contexto, a carne brasileira desempenha papel relevante na indústria de processamento americana.

Segundo integrantes do setor, parte importante do produto exportado pelo Brasil é utilizada para compor misturas destinadas à produção de carne moída e hambúrgueres, já que a carne brasileira é mais magra e ajuda a equilibrar a gordura da matéria-prima produzida localmente.

Na visão de exportadores, uma eventual restrição à carne brasileira teria impacto direto sobre os custos da indústria americana e poderia agravar pressões já existentes sobre os preços ao consumidor.

A interpretação é que a exclusão da proteína animal demonstra que o governo americano reconhece a importância do produto para o abastecimento interno.

Representantes da cadeia exportadora também contestam a ideia de que restrições às exportações brasileiras resultariam em maior oferta de carne no mercado doméstico. A explicação é que a exportação ajuda a sustentar economicamente o volume de abates realizados pelos frigoríficos.

A avaliação de exportadores é que a competitividade brasileira decorre principalmente de fatores estruturais, como disponibilidade de terras, produção de grãos, escala produtiva e custos mais baixos em comparação a concorrentes internacionais.

Por isso, interlocutores do setor afirmam que eventuais medidas comerciais dificilmente alterariam a posição do Brasil como maior exportador mundial de carne bovina.

Nos bastidores, a percepção é que a investigação americana deve ser acompanhada de perto, mas sem alarmismo. O entendimento é que ainda há espaço para negociação e que o histórico recente mostra que propostas anunciadas pelo governo americano podem sofrer alterações antes da implementação.

A investigação conduzida pelo USTR e as medidas comerciais propostas pelo governo americano ainda estão em consulta pública. Uma nova reunião está marcada para o dia 6 de julho e a data oficial para vigência do que consta no relatório é 15 de julho.

Para o setor exportador, porém, a exclusão da carne bovina da lista de produtos potencialmente atingidos reforça a avaliação de que os impactos práticos para a proteína brasileira tendem a ser limitados no curto prazo.