'Glossário' de pesquisas tecnológicas quer atrair empresas do agro
Centro da Unesp aposta em portfólio para conectar pesquisa em biodiversidade a demandas do agro; documento reúne tipos de tecnologias e perfis de pesquisadores para transformar inovação em produto

Um centro de pesquisa financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) aposta em um novo modelo de comunicação para aproximar ciência e mercado. O CEPED de Biodiversidade e Mudanças Climáticas, ligado à Unesp, acaba de lançar online um portfólio que reúne tecnologias, pesquisadores e competências com foco em ampliar parcerias com empresas, especialmente no agronegócio.
Mais contemporâneo que um manual e que uma lista de indicações, o documento digital reúne as mais recentes tecnologias desenvolvidas na instituição - e aplicadas em cidades próximas a áreas rurais - para captar a atenção de produtores rurais e de empresas do agronegócio. A ideia é transformar pesquisas em estágios iniciais em aplicações no campo que possam se converter em negócios rentáveis. É assim que o Centro de Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), com sede no Instituto de Biociências da Unesp – Rio Claro, inicia a publicação de seu primeiro portfólio de inovação.
No portfólio estão tecnologias de monitoramento ambiental e práticas agrícolas sustentáveis até soluções inovadoras baseadas na natureza e processos regenerativos. Cada iniciativa reforça o papel do centro de referência em pesquisa aplicada, inovação e sustentabilidade, destaca o Leonardo Fraceto, coordenador de inovação do CBioClima. A ideia, acrescenta, é demonstrar como o conhecimento científico pode se converter em soluções concretas à agropecuária, à indústria e a órgãos de gestão ambiental.
A proposta, segundo o professor, vai além de apresentar patentes já prontas para licenciamento. “Mais do que as tecnologias que a gente tem, as patentes que já existem, a gente entendeu que seria importante comunicar também a expertise dos pesquisadores no desenvolvimento de novas soluções”, afirma em entrevista ao CNN Agro.
O documento funciona como uma vitrine do ecossistema de pesquisa do centro, incluindo desde tecnologias em estágio avançado até linhas de investigação em andamento. A ideia é permitir que empresas encontrem parceiros desde o início do desenvolvimento. “A pessoa consegue ver ali um ecossistema de pesquisa e fazer esse ‘match’ para contribuir desde o início. Às vezes, a gente não tem uma solução pronta, mas existe um caminho para resolver o problema”, diz.
Entre as aplicações, estão pesquisas com micro-organismos e nanotecnologia voltadas ao aumento da produtividade agrícola e à adaptação às mudanças climáticas. Um dos exemplos citados é o uso de sistemas de liberação de oxigênio para tratamento de sementes, que ajudam plantas a resistir a condições adversas, como seca.
Outro destaque são nanopartículas biogênicas desenvolvidas a partir de microrganismos, com potencial para controle de pragas e doenças.
No futuro, maior escalabilidade
O lançamento é um primeiro passo de divulgação científica para buscar financiamento e parcerias, mas o momento é estratégico, segundo o CBioClima, porque o país vem ajustando suas políticas públicas para "alinhar ciência, inovação e governança ambiental através da nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil, que estabelece metas ambiciosas de redução das emissões líquidas de gases de efeito estufa entre 59% e 67% até 2035" na tentativa de chegar a neutralidade climática até 2050.
Para construir o documento, o grupo levou cerca de um ano e a expectativa, agora, é medir o impacto da iniciativa a partir do interesse gerado junto ao setor produtivo. “Queremos entender se o primeiro contato das empresas vem a partir do portfólio ou de eventos. Isso vai ajudar a calibrar a estratégia”, afirma.
Segundo Fraceto, muitos projetos surgem a partir de demandas diretas de empresas, com desenvolvimento conjunto de soluções. “Quem transforma a tecnologia em produto é a empresa. A universidade entra com conhecimento, mas precisa desse parceiro para escalar”, complementa.
Entre os próximos passos, está a internacionalização do material, com versões em inglês, além da produção de conteúdos mais sintéticos para feiras e eventos corporativos.
Além da transferência de tecnologia, o projeto também busca estimular o empreendedorismo entre estudantes e pesquisadores, com a criação de startups a partir de pesquisas acadêmicas. “A gente quer formar profissionais que entendam tanto a ciência quanto as demandas do mercado. Isso também faz parte da inovação”, reforça Fraceto.
O cenário é propício para atuação da rede acadêmica como elo entre a pesquisa científica e as decisões estratégicas de políticas públicas e setores privados por meio de uma oferta de "soluções baseadas em evidências que podem acelerar o cumprimento dessas metas nacionais", assegura a nota da instituição enviada ao CNN Agro com exclusividade.
"Queremos inspirar ações reais, mostrando que é possível unir pesquisa, tecnologia e criatividade para gerar impacto ambiental, social e econômico de forma integrada e principalmente com o foco na experiência dos pesquisadores”, explica o coordenador.


