Hortas urbanas da Enel produzem 3 toneladas de alimentos por mês em SP

Programa utiliza áreas sob linhas de transmissão para cultivo de alimentos e reúne cerca de 80 pequenos agricultores em seis municípios

Kaique Cangirana, da CNN Brasil, São Paulo
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Áreas sob linhas de transmissão e faixas de servidão da Enel Distribuição São Paulo, que possuem restrições de uso, estão sendo utilizadas para a produção de alimentos por meio do programa Hortas em Rede. Criada em 2018, a iniciativa reúne cerca de 80 pequenos agricultores cadastrados, responsáveis pela produção de aproximadamente três toneladas de alimentos por mês.

Atualmente, o programa conta com 51 contratos de comodato vigentes, referentes a hortas instaladas em seis dos 24 municípios atendidos pela distribuidora. Os agricultores utilizam os terrenos regularizados para cultivar e comercializar os produtos, gerando ou complementando a renda familiar.

Segundo Letícia Curado, Head de Sustentabilidade da Enel Brasil, a agricultura urbana permite dar uma função socioambiental a áreas que apresentam restrições de uso. “A agricultura urbana dá uma função socioambiental estratégica a áreas sob linhas de transmissão e faixas de servidão, que possuem restrições de uso”, disse à CNN Brasil.

De acordo com a executiva, além da produção de alimentos e da geração de renda, o modelo ajuda a evitar ocupações irregulares e o descarte inadequado de resíduos. A iniciativa também busca aproximar a distribuidora do poder público e das comunidades onde as áreas estão localizadas.

Produção e geração de renda

Os agricultores participantes comercializam diretamente os alimentos produzidos nas hortas, inclusive em circuitos locais e feiras. A formalização por meio de contratos de comodato, segundo a Enel, proporciona maior segurança jurídica para a atividade.

O programa também oferece acesso a capacitações e pode facilitar a participação dos agricultores em programas de apoio desenvolvidos pelo poder público e por parceiros. “O projeto Hortas em Rede conta com orientação de cultivo, assistência técnica e suporte de insumos, conforme o perfil de cada área e o arranjo de parceiros envolvidos”, afirmou Curado.

A especialista explica que não existe um valor fixo de investimento por horta. O apoio em infraestrutura, irrigação, insumos e assistência técnica varia de acordo com as características de cada espaço e com as parcerias estabelecidas em cada município. “A Enel atua na regularização dos espaços e na estruturação de um modelo de apoio sustentável e seguro”, destacou.

Benefícios ambientais

Além do aspecto econômico, as hortas podem contribuir para a adaptação das cidades aos efeitos das mudanças climáticas. A manutenção de áreas vegetadas e de solo permeável favorece a infiltração da água da chuva e pode ajudar a reduzir os impactos de alagamentos.

As áreas verdes também contribuem para a redução das ilhas de calor, para a qualidade do ar e para a biodiversidade urbana. O programa ainda incentiva práticas de economia circular, como a compostagem e o aproveitamento de resíduos orgânicos e de podas de árvores na produção de adubo.

Outro efeito está relacionado à cadeia de abastecimento. Como parte dos alimentos é produzida próxima aos consumidores, a agricultura urbana pode reduzir a necessidade de transporte por longas distâncias e, consequentemente, as emissões associadas à distribuição.

Segundo o Relato de Impacto do Hortas em Rede, a iniciativa contribui para a capacidade de adaptação das cidades a eventos climáticos extremos e reúne impactos ambientais, sociais e econômicos.

De executiva a agricultora

Entre os participantes está Ana Albertina de Souza, de 57 anos. Após mais de uma década trabalhando na área de Recursos Humanos de uma empresa alemã, ela deixou o mercado corporativo em 2021 e passou a atuar em uma horta urbana no ano seguinte.

Hoje, Ana trabalha no cultivo e também no acolhimento de pessoas que visitam o espaço. “Hoje não me vejo fazendo outra coisa, além de estar aqui na horta, mexendo com a terra, plantando, recebendo pessoas e sendo útil. Para mim, isso significa cura”, contou.

Filha de um trabalhador rural e de uma diarista, Ana começou a trabalhar ainda criança e passou por diferentes ocupações antes de construir uma carreira na área de Recursos Humanos. Na horta, diz ter encontrado uma nova forma de trabalhar e de se relacionar com a comunidade.

“Passei muitos anos trabalhando em escritório, cuidando de pessoas e formando equipes. Hoje continuo cuidando de pessoas, mas de uma maneira diferente. Aqui, cuido da terra, das plantas e também das pessoas que chegam. É um trabalho onde me sinto viva novamente”, ressaltou.

Para a Enel, a experiência também mostra o potencial de áreas urbanas que, pelas restrições impostas às faixas de servidão, não poderiam receber outros tipos de ocupação.

Ao transformar esses terrenos em áreas verdes produtivas, o programa busca conciliar as exigências de segurança das linhas de transmissão com a geração de alimentos, renda e benefícios ambientais para as comunidades do entorno.