Maggi alerta para crédito caro no agro e avanço de recuperações judiciais

Ex-ministro afirma que juros elevados e perda de confiança podem restringir financiamento do setor e defende maior rigor nas recuperações judiciais

Andressa Simão, da CNN Brasil, São Paulo
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O agronegócio brasileiro enfrenta maior pressão sobre o crédito, com juros elevados, acesso restrito ao financiamento e alta no número de recuperações judiciais.

Durante o Bradesco BBI Agro Summit 2026, realizado nesta quinta-feira (10) em São Paulo, o ex-ministro da Agricultura Blairo Maggi disse que crédito é essencial para a atividade agropecuária e a combinação entre custo elevado do dinheiro e aperto nas garantias pode deixar justamente os produtores mais vulneráveis fora do mercado de financiamento.

"Até hoje é assim: o crédito é a mola de todo o nosso negócio", afirmou.

Na avaliação do ex-ministro, o cenário atual é resultado, em parte, do desequilíbrio das contas públicas e dos juros elevados. Para ele, o governo gastar mais do que arrecada aumenta a necessidade de financiamento e contribui para manter as taxas de juros em patamares elevados: "os juros altos que nós temos hoje não são bons para o agronegócio, não são bons para ninguém", disse.

Maggi traçou um retrato da situação financeira dos produtores, especialmente no Centro-Oeste, no Norte e no Matopiba.

Segundo ele, atualmente seria possível dividir os agricultores dessas regiões em três grupos: cerca de um terço enfrenta dificuldades financeiras mais severas, outro terço deve conseguir atravessar o período e um terceiro grupo apresenta situação financeira confortável.

A diferença, segundo o ex-ministro, está principalmente no nível de investimentos e endividamento acumulado. "Os produtores que estão em situação mais delicada foram aqueles que ampliaram fortemente os investimentos nos últimos anos, comprando terras, construindo estruturas de armazenagem ou abrindo novas áreas" ressaltou Maggi.

O problema é que a geração atual de caixa da atividade pode ser suficiente para manter a operação, mas não necessariamente para quitar compromissos assumidos em ciclos anteriores.

"Esse está com problema, porque o volume de dinheiro, o lucro que a tua atividade dá por ano, não é suficiente para manter a atividade atual... mantém a atividade atual, mas não consegue resgatar as promissórias do passado", afirmou.

Nesse ambiente, Maggi afirmou estar acompanhando o aumento dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio.

Segundo ele, a recuperação judicial pode afetar não apenas o produtor ou a empresa que entra no processo, mas toda a cadeia de crédito, incluindo bancos, fornecedores, tradings e empresas que financiam a produção.

"Quando você quebra esse elo de confiança e você começa a ter muitos problemas na liquidação, você retira o crédito", disse.

O ex-ministro avalia que a redução da oferta de financiamento pode não comprometer imediatamente a próxima safra, uma vez que parte dos insumos já foi adquirida, mas pode gerar dificuldades para os ciclos seguintes.

"Não diria a safra deste ano, que está comprada, as sementes e os fertilizantes já estão colocados, mas no futuro pode complicar sim", afirmou.

CPR e CRA

Maggi destacou que o crédito rural brasileiro deixou de depender exclusivamente dos recursos oficiais do governo e passou a contar com uma participação maior do mercado privado.

Segundo ele, instrumentos como a CPR (Cédula de Produto Rural) e o CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) ampliaram as alternativas de financiamento para produtores e empresas.

Na avaliação do ex-ministro, esses mecanismos podem oferecer recursos a custos mais baixos, mas dependem diretamente da confiança e da capacidade de pagamento dos tomadores.

"Os instrumentos, os papéis que foram criados nos últimos anos, foram criados por política, foram criados no Congresso, foram criados no Ministério", afirmou.

Para Maggi, uma melhora nos índices de adimplência poderia contribuir para reduzir o custo do crédito no mercado.

Recuperação Judicial

Maggi também fez críticas ao uso da recuperação judicial por empresas e produtores que, segundo ele, teriam condições de honrar seus compromissos, mas utilizariam o mecanismo para tentar repartir prejuízos com credores.

Na avaliação do ex-ministro, esse comportamento aumenta o risco percebido pelo mercado e, consequentemente, encarece o dinheiro para todo o setor.

"Não pode ter problemas como o setor de... o fazendeiro A ou o industrial vai e toma lá R$ 200 milhões, R$ 300 milhões de reais num CRA e num CPR, e depois, um ano depois, está pedindo concordata na praça. Aí estressa os juros", afirmou.

Maggi defendeu que, nos casos em que houver patrimônio suficiente para honrar compromissos, os ativos sejam utilizados antes que o prejuízo seja transferido aos credores.

A preocupação, segundo ele, é que uma onda de inadimplência e recuperações judiciais comprometa a confiança no mercado de crédito rural e aumente o custo de financiamento para produtores que continuam adimplentes.

Segurança Jurídica

Durante o debate, a segurança jurídica também foi apontada como um fator decisivo para o acesso a capital. Maggi afirmou que investidores estrangeiros consideram a previsibilidade das regras um elemento fundamental para decidir pela aplicação de recursos no Brasil.

Para Maggi, a previsibilidade das regras é especialmente importante em um setor que trabalha com ciclos longos de investimento e depende de financiamento.

A atuação do Judiciário nas recuperações judiciais também foi discutida durante o encontro.

Maggi afirmou que há problemas, mas ponderou que existem exemplos positivos. Ele citou Mato Grosso, onde, segundo sua avaliação, o Judiciário apresenta entendimento de que garantias previstas em instrumentos de crédito devem ser respeitadas.

"Você fez uma CPR, você tem uma garantia, essa garantia tem que ser executada", afirmou.

Para o ex-ministro, o respeito às garantias é fundamental para preservar a confiança dos agentes financeiros e manter o fluxo de recursos para o setor.