Mercado de fertilizantes entra em fase perigosa com acirramento da Guerra
Setor produtivo global teme crise fabricação de insumos e não só atraso logístico, aponta relatório da StoneX

Os mercados de fertilizantes estão entrando em uma fase mais perigosa à medida que as interrupções no fornecimento deixam de ser atrasos temporários e passam a representar danos estruturais diante da imprevisibilidade do fluxo marítimo no Estreito de Ormuz, no Oriente Médio. É o que avalia o especialista Josh Linville.
Segundo o vice-presidente da área de Fertilizantes da StoneX, a intensificação da guerra com ataques à infraestrutura de energia na região - incluindo Irã e Catar - atinge diretamente a produção, e não apenas a logística. Entre as consequências estão os prazos mais longos para recuperação das usinas e fábricas, além da incerteza sobre a oferta global.
"Essa mudança eleva o risco de volatilidade persistente nos mercados de insumos agrícolas, justamente em um momento crítico para a produção global de alimentos", reitera o relatório de mercado da consultoria.
O temor também aflige o Brasil, ainda que de forma indireta. A partir dos primeiros 20 dias de guerra, o problema que ronda a cadeia agropecuária é a manutenção do fornecimento de adubo - ainda que com custo maior - para a safra de verão.
As compras costumam acontecer entre final de maio e início de julho, mas com a gravidade dos ataques, há mais dúvidas sobre a decisão de compra para combater uma eventual escassez de produtos à base de nitrogênio, principalmente, e à base de enxofre, lembra o especialista da StoneX.
O maior desafio é não perder a produtividade, por isso não dá para pensar uma paralisação nas compras de fertilizantes. O planejamento fica bagunçado e a decisão à mercê da volatilidade externa, explica o pesquisador do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV, Francisco Pessoa Faria.
Em entrevista ao CNN Agro, Faria se mostrou bastante preocupado com o peso da situação geopolítica nos custos de produção com adubo e o quanto isso pode influenciar no preço dos alimentos, uma consequência indireta. "Já estamos diante de um choque de oferta — a grande questão agora é entender o quanto ele será duradouro. Muitos contratos de fertilizantes provavelmente já foram fechados a preços bem mais altos, o que deve pressionar ainda mais os custos de produção", enfatizou.
De forma complementar, Linville destacou que o foco do mercado mudou, saindo dos atrasos no transporte para prazos mais longos de reparo e retomada das operações.
Rússia e sanções
O recente ataque de mísseis no Catar, que elevou o valor do gás natural do tipo GNL a US$ 17, reforçou o alerta do mercado global sobre a fabricação de insumos. Alívios pontuais viriam de outros fornecedores de fertilizantes, por exemplo a China. Entretanto, na última semana, o líder asiático restringiu as exportações para poder conter oscilações no mercado interno.
O fôlego poderia vir da Rússia, frisa faria, mas as sanções teriam de ser retiradas. Em fevereiro, por exemplo, a União Europeia aplicou sanções aos russos, incluindo fertilizantes. A partir deste cenário, Faria lembra que uma eventual retirada de sanções para adubo russo, aliviaria pressão entre oferta, demanda e fornecimento. Nessa perspectiva, o pesquisador considerou a Rússia "a maior ganhadora da guerra" até agora.
Se o país ampliar sua presença no mercado, pode haver algum controle na precificação. Ainda assim, o quadro segue bastante delicado — especialmente considerando o que vem acontecendo após o Irã, com a Ucrânia em uma situação ainda mais crítica, acrescentou Faria.


