Relembre as negociações para o acordo entre Mercosul e UE
Após 26 anos de negociações os blocos assinam, neste sábado (17), o acordo de livre comércio

Após 26 anos de negociações, Mercosul e União Europeia assinam, neste sábado (17), o acordo de livre comércio entre os blocos.
Em dezembro de 2024, os blocos anunciaram a conclusão das negociações.
O acordo foi ratificado no último dia 9 pelo Conselho Europeu. Na votação no Conselho, era necessário que ao menos 15 dos 27 países, representando ao menos 65% da população do bloco, fossem favoráveis ao tratado.
O aval da Itália abriu caminho para que o Conselho formasse maioria para a aprovação.
Apenas França, Polônia, Áustria, Irlanda e Hungria votaram contra o acordo, o que não foi suficiente para barrar a decisão, já que os demais países favoráveis garantiram tanto o critério de número mínimo de Estados quanto o de representatividade populacional exigidos nas votações do Conselho da União Europeia. Após a aprovação no Conselho e assinatura, o acordo segue para o Parlamento Europeu, onde precisa de uma maioria simples para ser ratificado.
As tratativas começaram oficialmente em junho de 1999, durante uma reunião de alto nível no Rio de Janeiro, mas suas origens remontam a um cenário geopolítico ainda mais antigo.
O professor e diplomata aposentado Paulo Roberto de Almeida aponta que a ideia de um acordo entre os dois blocos surgiu quando os europeus perceberam a iniciativa dos Estados Unidos de criar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), em 1994, sob o governo do democrata Bill Clinton.
Frente a essa proposta, a UE buscou reforçar suas relações comerciais com a América Latina, visando consolidar sua presença no continente.
No entanto, o processo sofreu interrupções após o fracasso da Alca, em 2005.
Almeida também destaca que a oposição de líderes sul-americanos, como o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — que estava em seu primeiro mandato —, o argentino Néstor Kirchner e o venezuelano Hugo Chávez, que rejeitaram o projeto da Alca, contribuiu para o desinteresse europeu naquele momento.
Além disso, pressões protecionistas, especialmente de países como a França, dificultaram o avanço das negociações, que permaneceram estagnadas até 2010.
A retomada significativa das conversas ocorreu após 2016, quando o cenário internacional mudou com a ascensão de Donald Trump nos EUA.
O republicano adotou uma postura protecionista e fragilizou o sistema multilateral de comércio, impondo tarifas contra diversos parceiros, incluindo a UE.
"Os europeus, pressionados entre o martelo americano e a bigorna chinesa, resolveram relançar o acordo com o Mercosul: [um tratado de associação] foi concluído rapidamente em 2019, por haver [os ex-presidentes] Jair Bolsonaro, no Brasil, e Mauricio Macri, na Argentina; mas não foi ratificado, justamente por pressões dos mesmos protecionistas europeus", pontuou Almeida.
*Com informações de Cristiane Noberto e João Nakamura


