Sem frango brasileiro, Europa pode sentir pressão sobre os preços, diz ABPA

Ricardo Santin afirma que até 20% do peito de frango consumido no bloco vem do Brasil, e que o país tem como diversificar suas exportações

Gabriella Weiss, da CNN Brasil
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A suspensão das importações de produtos de origem animal do Brasil pela União Europeia, que entrou em vigor nesta quinta-feira (3), deve ter efeitos limitados no curto prazo para o mercado brasileiro, segundo o presidente da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), Ricardo Santin. Na avaliação do executivo, porém, a ausência da carne de frango brasileira pode ser sentida pelos consumidores europeus e pressionar os preços de alimentos na região caso a medida se prolongue.

Santin afirmou, em entrevista ao CNN Agro News, que os importadores europeus anteciparam compras nos últimos meses diante da possibilidade de interrupção do comércio. As exportações brasileiras de carne de frango para a União Europeia cresceram 73% de janeiro a julho deste ano, segundo ele.

“A exportação para a União Europeia de carne de frango representa 7% das exportações brasileiras, anteriormente era uma média de 5%”, afirmou. O Brasil, acrescentou, mantém vendas para mais de 150 países, o que permite redirecionar parte da produção para outros mercados.

O impacto, portanto, não deve ser imediato. Santin destacou que as empresas brasileiras podem registrar perda de rentabilidade, já que o mercado europeu remunera melhor o produto. 

Ele citou como exemplo o episódio de influenza aviária registrado no Rio Grande do Sul no ano passado, quando o Brasil ficou quatro meses sem vender carne de frango para a União Europeia e, ainda assim, encerrou o ano com crescimento de 1% nas exportações.

A situação pode ser diferente na Europa se a suspensão se prolongar. “O Brasil também é muito importante para a União Europeia. Quase 20% do peito de frango que eles consomem lá, especialmente para processamento, vem do Brasil. Ficar muito tempo sem o Brasil significa inflação de alimentos para os consumidores europeus”, disse.

“Nossa ausência vai ser sentida na gôndola dos supermercados europeus”, acrescentou Santin.

O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango e, segundo o presidente da ABPA, responde por 37,6% do mercado global. Com a suspensão, a oferta brasileira que antes chegava ao mercado europeu terá de ser direcionada para outros destinos ou para o mercado doméstico.

Missão europeia avaliou controles sanitários

A entrada em vigor da suspensão ocorre após uma missão técnica da União Europeia ao Brasil, que encerrou os trabalhos na quarta-feira (2). Segundo Santin, a equipe avaliou os mecanismos de fiscalização adotados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária e a aplicação desses controles pelas empresas brasileiras.

A União Europeia havia solicitado um reforço na fiscalização, incluindo visitas do Ministério da Agricultura a granjas e fábricas de ração, além dos controles já existentes, como boletins sanitários, fichas de acompanhamento de lotes e o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes.

Santin afirmou que o Ministério da Agricultura já colocou o sistema adicional em prática e que um ciclo de produção de aves já foi realizado sob o novo modelo de fiscalização.

“A Europa gostaria que o Ministério da Agricultura fizesse uma fiscalização maior para além daqueles manejos que a gente já fiscaliza, (...) e o Ministério já fez”, afirmou.

Segundo ele, a missão europeia teve como objetivo verificar se o governo brasileiro estava cumprindo os procedimentos de fiscalização apresentados à União Europeia e se as empresas continuavam atendendo aos requisitos exigidos para a exportação.

“No nosso caso, a missão europeia cumpre apenas fazer a auditoria bem feita, com transparência total, e cumprimos tudo que eles quiseram ver”, disse.

O presidente da ABPA afirmou que o setor considera que as exigências europeias vêm sendo atendidas e que o reforço da fiscalização não alterou as características dos produtos destinados àquele mercado.

Expectativa por relatório parcial

Com o fim da missão técnica, a expectativa do setor agora está concentrada na elaboração do relatório europeu. Santin disse esperar que a União Europeia produza um relatório parcial rapidamente, com os resultados preliminares da auditoria.

“O Ministério da Agricultura cumpriu sua parte e agora falta o tempo deles. (...) Espero que possam fazer um relatório parcial e o mais rápido possível”, afirmou.

Segundo Santin, a autoridade europeia também poderá convocar uma reunião extraordinária do Comitê Permanente de PAFF (Plantas, Animais, Alimentos e Rações), caso entenda necessário. A decisão, porém, cabe às autoridades da União Europeia.

Brasil busca redirecionar exportações

Enquanto aguarda uma decisão europeia, o setor de carne de frango trabalha para redistribuir os volumes que deixaram de ser destinados ao bloco. Santin afirmou que a diversificação dos mercados permite ao Brasil direcionar parte da produção para outros compradores e para o mercado doméstico.

Entre os destinos citados estão México, países da África e outras nações da América do Sul.

Santin também citou os Emirados Árabes Unidos como um mercado que continua recebendo a proteína brasileira. Segundo ele, apesar das dificuldades na região com o fechamento do estreito de Ormuz, o Brasil mantém cerca de 95% do volume que vendia anteriormente ao país.

A estratégia, segundo o presidente da ABPA, é distribuir a produção entre os diferentes mercados disponíveis, evitando tanto uma queda nas exportações quanto uma concentração excessiva de produto no mercado interno.

“Nós temos 150 mercados que a gente vende, consegue fazer isso, além do mercado interno”, afirmou.

Para Santin, a capacidade de diversificação é o principal instrumento do setor brasileiro diante da suspensão europeia. O desafio, no curto prazo, é substituir um mercado considerado mais rentável enquanto o Brasil aguarda a avaliação dos técnicos europeus e uma possível revisão da medida.