Syngenta aposta em gestão digital diante de crédito restrito

Ferramentas de monitoramento e análise buscam aumentar eficiência produtiva

Gabriella Weiss, da CNN Brasil, São Paulo
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Em um momento marcado por restrições de crédito e custos de produção mais elevados, considerado desafiador para a adoção de novas tecnologias no campo, empresas do setor agrícola apostam em soluções digitais de gestão de lavouras para produtores rurais.

Segundo executivos da Syngenta, ferramentas digitais podem contribuir para decisões mais precisas e ganhos de eficiência em um cenário econômico mais pressionado. A divisão digital da companhia atua no Brasil por meio de uma subsidiária e tem concentrado investimentos na integração de soluções tecnológicas adquiridas nos últimos anos.

Bruno Muller, responsável pela área de agricultura digital no Brasil, afirma que a perspectiva é de uma safra mais apertada, mas avalia que o uso de tecnologias pode auxiliar na tomada de decisão sobre a compra de insumos e a operação de máquinas, com potencial de gerar economia.

De acordo com a empresa, suas ferramentas monitoram atualmente 76 milhões de hectares no mundo, sendo 14,8 milhões no Brasil. A meta é atingir 100 milhões de hectares monitorados até 2030.

As soluções digitais estão reunidas na plataforma Cropwise, que atualmente conta com cinco ferramentas no Brasil e passa a incorporar uma sexta funcionalidade. A nova solução, denominada módulo Operations, já é utilizada internacionalmente há cerca de dez anos.

Segundo André Piza, responsável global por agtech na empresa, o sistema é empregado, por exemplo, pelo governo da Ucrânia para análise e divulgação de dados agrícolas, em modelo semelhante ao realizado no Brasil pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Globalmente, o módulo reúne cerca de 50 milhões de hectares monitorados, com 40 mil usuários ativos e 265 mil máquinas conectadas.

O Operations funciona como uma camada de operação agrícola que conecta planejamento, execução e análise. A proposta é transformar dados operacionais em informações acessíveis dentro da plataforma, permitindo a visualização mais detalhada dos custos e da execução das atividades no campo.

De acordo com Piza, um dos principais obstáculos à adoção de tecnologias no campo é a fragmentação de dados entre diferentes sistemas. A proposta da plataforma é integrar essas informações, permitindo que os produtores utilizem funcionalidades de forma modular, conforme suas necessidades.

Entre os aspectos monitorados estão as diferenças entre talhões, desperdícios operacionais, variações de eficiência e custos operacionais. A tecnologia busca permitir ajustes durante a própria safra, a partir da identificação dessas variáveis.

A empresa afirma utilizar mais de duas décadas de dados históricos, combinando diferentes tipos de informação processados com apoio de inteligência artificial. Segundo os executivos, esses dados são utilizados para gerar diagnósticos e recomendações operacionais adaptadas às condições específicas de cada propriedade, como solo, clima, cultura e histórico produtivo.

Contudo, a adoção de tecnologias em grande escala esbarra em alguns desafios. Entre eles estão a complexidade da gestão operacional das propriedades, que envolve múltiplas máquinas, operadores e sistemas distintos, além de limitações de conectividade em áreas rurais e a necessidade de simplificação no uso das ferramentas digitais.

A companhia destaca que parte das funcionalidades pode operar offline. Em outros países, há uso combinado com soluções de conectividade via satélite, como as da Starlink, alternativa que também é avaliada para o mercado brasileiro.

Além disso, a adoção de tecnologia acontece, sobretudo, em grandes propriedades, muito mais digitalizadas e com maior capital para investimento. No país, a plataforma é utilizada principalmente por grandes produtores, com áreas superiores a 2.500 hectares, com maior adesão nas culturas de grãos e cana-de-açúcar, além de uso em algodão e citros. A empresa afirma que pretende ampliar o alcance das soluções para diferentes perfis de produtores.