Uso de R$ 40 bi em crédito rural deve acelerar conversão de área degradada
Levantamento da Agroicone indica que o direcionamento de recursos já existentes pode mobilizar quase R$ 40 bilhões por safra para impulsionar a conversão de áreas degradadas

A recuperação de pastagens degradadas pode se tornar uma das principais estratégias para ampliar a produção agropecuária brasileira sem necessidade de abertura de novas áreas se houver melhor distribuição de verbas do crédito rural. Esta é a principal conclusão de um estudo inédito da Agroícone.
Em primeira mão ao CNN Agro, o levantamento identifica R$ 17,2 bilhões já alocados em imóveis com pastagens degradadas e estima necessidade adicional de R$ 22,6 bilhões, o que leva a um potencial de quase R$ 40 bilhões em investimentos por safra.
Atualmente, o crédito rural já conta com R$ 30,5 bilhões em linhas de investimento alinhadas à sustentabilidade. Mas a recomendação do estudo técnico “Potencial de Alavancar a Conversão de Pastagens Degradadas com o Crédito Rural” é de que os valores sejam direcionados de forma mais eficiente a partir de vigilância do caminho que o dinheiro fará.
Isso significa entender qual o perfil do produtor, quem tem imóvel e área degradada com potencial para assumir um financiamento e converter o pasto, por exemplo. Para isso, a proposta é usar o valor e os instrumentos da política de crédito rural que já existem e são aplicados no Brasil, complementando-os com recursos privados do programa Eco Invest.
O levantamento identifica que o Brasil possui cerca de 27,7 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial de recuperação ou conversão no curto prazo. A área representa mais de dois terços da meta de 40 milhões de hectares em dez anos, estabelecida pelo Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas (PNCPD), iniciativa do governo federal dentro do programa Caminho Verde Brasil.
Segundo o estudo, apenas na safra 2024/25, o crédito rural já direcionou R$ 17,2 bilhões para imóveis que possuem áreas degradadas. Além disso, existe uma demanda potencial adicional de R$ 22,6 bilhões, distribuída entre aproximadamente 185,7 mil propriedades rurais, que poderiam aderir a projetos de recuperação produtiva.
A proposta, no entanto, não é ampliar o volume de subsídios públicos, mas aumentar a eficiência na alocação dos recursos já disponíveis.
"Não estamos propondo uma mudança na política pública do crédito rural. O objetivo é direcionar melhor os recursos para a recuperação de pastagens, permitindo a expansão sustentável da agropecuária, o aumento do estoque de carbono no solo, mais resiliência produtiva e maior geração de renda ao produtor", afirmou Leila Harfuch, sócia da Agroicone e uma das autoras do estudo, em entrevista ao CNN Agro.
A pesquisadora explica que a análise desenvolveu uma metodologia para estimar a demanda real por investimentos, identificando quais propriedades apresentam maior potencial para receber recursos voltados à recuperação de áreas degradadas.
Recursos já existem, mas ainda chegam lentamente ao campo
Um dos principais achados do estudo é que parte significativa do financiamento necessário já está prevista dentro do próprio Sistema Nacional de Crédito Rural.
Os pesquisadores identificaram R$ 30,5 bilhões em operações de investimento alinhadas à chamada jornada de sustentabilidade — incluindo programas voltados para recuperação de solos, sistemas integrados de produção, agricultura regenerativa, bioinsumos, florestas plantadas e recuperação de pastagens.
Segundo o pesquisador Lauro Marques, da Agroicone, cerca de 31% do crédito rural de investimento já apresenta algum nível de aderência a objetivos de sustentabilidade.
"O grande avanço do estudo é mostrar onde priorizar esses recursos. O dinheiro existe, mas sua adoção pelos produtores ainda avança lentamente diante da atual conjuntura do agro, marcada por menor apetite para novos financiamentos", afirmou.
O estudo cruzou informações do Banco Central com critérios próprios para identificar quais imóveis possuem pastagens degradadas e quais produtores já demonstram perfil mais favorável à adoção de investimentos sustentáveis.
"Foram analisados cerca de 4,2 milhões de imóveis com pelo menos um hectare de pastagem. A partir disso conseguimos identificar quais propriedades deveriam ser priorizadas na política pública", explicou Marques.
Direcionar melhor os recursos
A pesquisa também sugere um refinamento na forma como os financiamentos são concedidos.
Segundo Leila Harfuch, hoje parte relevante das operações de crédito é destinada apenas à aquisição de bovinos, sem necessariamente promover melhorias estruturais na propriedade.
"Se o imóvel possui pastagens degradadas, faz mais sentido que o projeto financiado tenha horizonte de longo prazo e promova efetivamente essa transformação produtiva, aumentando renda e promovendo descarbonização", afirmou.
Para os autores, o desafio não é apenas ampliar recursos, mas desenvolver mecanismos capazes de identificar quais propriedades devem receber prioridade.
"Ainda vemos um esforço regulatório importante para mapear onde estão essas áreas degradadas. Também é preciso entender quais imóveis não deveriam acessar determinadas linhas, permitindo que o dinheiro seja direcionado de forma mais eficiente", disse Marques.
Eco Invest pode reduzir custo do capital
O estudo também aponta que a integração entre crédito rural e o Eco Invest Brasil, programa criado dentro do Plano de Transformação Ecológica para atrair capital privado e internacional para projetos sustentáveis, pode acelerar o cumprimento da meta nacional.
Segundo Harfuch, o custo atual do financiamento ainda é um obstáculo.
"Capital acima de 7% ao ano é caro para esse tipo de investimento. A recuperação de pastagens é economicamente viável no longo prazo, mas principalmente os pequenos produtores precisam de condições mais favorecidas."
Na avaliação da pesquisadora, o Eco Invest pode funcionar como mecanismo de compartilhamento de risco e redução do custo financeiro.
"O capital privado pode complementar os recursos públicos. Quanto maior o peso do Eco Invest nessa estrutura, mais viável será oferecer crédito compatível com a necessidade desse tipo de transformação."
Cenário econômico dificulta novos investimentos
Apesar do potencial identificado, os pesquisadores reconhecem que o momento econômico do setor não favorece a tomada de novos financiamentos.
"Vivemos um cenário de elevado endividamento, inadimplência em níveis recordes e prioridade absoluta do produtor em financiar o custeio da safra. Isso reduz naturalmente o interesse por investimentos de longo prazo", afirmou Harfuch.
Ela alerta que esse quadro tende a perpetuar um ciclo de baixa resiliência.
"Estamos numa emergência climática. Se não houver uma política pública de médio e longo prazo, continuaremos repetindo um ciclo de quebra de safra, renegociação de dívidas e aumento da inadimplência."
Para a pesquisadora, além do crédito rural, instrumentos de mitigação de risco, como o seguro rural, também deveriam voltar ao centro da política agrícola.
"O crédito rural precisa ser visto não apenas como financiamento da produção, mas como instrumento capaz de direcionar investimentos privados e cumprir objetivos mais amplos da política climática", reforçou.


