Venda de carne para a China, dentro da nova cota, começa abaixo do esperado
Embarques de carne bovina em outubro podem fechar abaixo do registrado no mesmo período do ano passado; real valorizado, na maior parte do mês de outubro, fez importadores chineses pedirem descontos e desacelerarem as compras

A expectativa de uma corrida de frigoríficos brasileiros para abastecer a China com carne bovina antes da entrada em vigor da nova cota de importação de 2027 ainda não se confirmou.
Apesar de os primeiros embarques destinados a preencher o volume do próximo ano terem começado em setembro, os chineses negociam em ritmo mais lento que o esperado e pressionam os preços pagos pela proteína brasileira.
Raphael Martin, sócio fundador da RxM Food, e especializado na venda de alimentos e especialmente de carne bovina ao mercado internacional, conta que os primeiros embarques para preencher a nova cota foram feitos já em setembro, com navios hoje a caminho da China.
“Os chineses não vieram tão fortes como o mercado esperava, tanto em relação ao preço quanto ao volume”, diz o exportador.
Martin conta que do lado brasileiro havia uma expectativa muito grande em relação ao apetite chines. Porém as vendas se mantem dentro da média de anos anteriores.
Os preços dos primeiros embarques de setembro foram negociados a preços superiores aos praticados no mesmo período de 2025. Mas a valorização da carne bovina no mercado internacional mudou o comportamento dos compradores chineses, que passaram a pechinchar.
A tonelada embarcada em outubro saiu do Brasil cerca de 5% abaixo do preço praticado em setembro.
“O valor da tonelada embarcada em outubro, no preço base que é o do dianteiro, foi em média por volta de US$ 6,8 mil a US$ 6,9 mil a tonelada. E agora já não conseguimos vender nem a esse preço mais, porque a China está apertando no preço”, pontua Raphael Martin.
O ritmo mais lento também é observado pela Scot Consultoria. “Devemos fechar em 210 mil toneladas embarcadas no mês considerando o ritmo médio de exportação de quase 10 mil toneladas por dia. Esse volume é cerca de 30% menor que o embarcado no mesmo mês do ano passado", diz o analista da Scot Alcides Torres.
A valorização do real ao longo de outubro, antes do segundo turno das eleições, também contribuiu para encarecer a carne brasileira no mercado internacional e dificultar as negociações, avalia Torres.
“Os chineses passaram a negociar mais o preço. Com a cotação da arroba subindo aqui eles pressionaram mais na hora de fechar os negócios, apertando as margens dos frigoríficos. A mudança no câmbio com a alta do dólar, na reta final de outubro, ajudou a ‘desafogar’ um pouco as negociações.”
Essa oscilação do câmbio e do ritmo de vendas refletiram no mercado futuro do boi gordo. O contrato de novembro na B3 abriu o mês operando acima de R$ 410,00 a arroba. Caiu para R$ 404,00 e nesta sexta-feira (06) opera em R$406,00 e em tendência de alta.
A nova cota de importação da China para 2027 será ligeiramente ampliada, passando para 1,128 milhão de toneladas, ante as 1,106 milhão de toneladas estabelecidas em 2026.
Se ela vai terminar mais cedo no ano que vem Alcides ressalta esse é um assunto que merece cautela do mercado.
“Se os chineses comprarem altos volumes, recorde atrás de recorde, pode acontecer sim da cota acabar mais cedo em 2027. Mas devemos considerar que as cotas da Argentina e do Uruguai ainda não foram totalmente preenchidas. Além disso teremos a retomada da cota australiana. Tudo indica também para fase de alta nos preços da carne, para todos esses países, e isso pode diminuir um pouco o ímpeto de compras dos chineses”.
A Secex (Secretaria de Comércio Exterior), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços , divulga nesta sexta-feira (6) os dados consolidados da balança comercial de outubro. Os números devem permitir avaliar o desempenho das exportações brasileiras de carne bovina no mês, tanto em volume quanto em receita.


