Como a alíquota de 35% sobre veículos eletrificados afeta a manutenção
Alíquota máxima, definida pela MDIC em 2023, entra em vigor em julho de 2026

Em julho de 2026, entra em vigor a alíquota máxima de 35% de imposto de importação sobre veículos elétricos e híbridos no Brasil, encerrando o cronograma de reoneração gradual do governo federal. Embora o debate esteja concentrado no preço do zero km, um efeito colateral silencioso é que, sem conseguir trocar de carro, o consumidor vai segurar o veículo atual por mais tempo, elevando a demanda da manutenção.
O mercado
Os dados mais recentes mostram que o mercado brasileiro vive uma dualidade, em que a retenção de usados e a compra de novos coexistem:
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Conservação da frota: veículos com 13 anos ou mais lideraram o mercado de usados, representando 37,4% do total comercializado (6,9 milhões de unidades), segundo a Fenauto.
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Busca por novos: o primeiro trimestre de 2026 registrou uma alta de 16,09% nos emplacamentos de novos (Fenabrave), o terceiro melhor resultado histórico do país.
Quem tem orçamento disponível continua trocando de carro; quem não tem, gasta na conservação do veículo que já possui.
O que o dono do elétrico procura?
A busca por serviços nas lojas e oficinas muda drasticamente de acordo com o tempo de estrada do veículo eletrificado. Caio Viguini, dono de uma loja especializada em acessórios e manutenção em Linhares (ES), explica essa divisão.
Até 2 anos de uso
Como os elétricos chegam muito equipados de fábrica, a procura inicial foca em proteção:
"Os carros elétricos todos vêm bem completos de fábrica e, por esse motivo, na linha de acessórios, os clientes desses carros procuram serviços externos como: proteção de pintura/vitrificação, PPF e película térmica", explica Caio.
A partir de 8 anos de uso
Com o envelhecimento natural do carro, a demanda passa a ser mecânica e tecnológica.
"Com o envelhecimento do veículo, o que aparece são diagnósticos de bateria para avaliar a degradação da capacidade (SoH), troca de pneus com mais frequência, verificação do fluido de freio e atualizações de software", detalha o empresário.
As peças vão encarecer?
Embora o imposto de 35% incida diretamente sobre o carro inteiro importado, o preço dos componentes de reposição também vai subir de forma indireta.
"Certamente vai impactar muito o setor", alerta Viguini. "Se formos pensar que a maioria dessas peças é importada, na medida em que o valor do carro novo aumenta, as peças também sofrem ajustes nos preços."
Segundo o especialista, esse reajuste ocorre por dois motivos principais:
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Compensação de margem: as autorizadas sobem o preço dos componentes para "balancear o possível lucro que a concessionária perde pelo valor do carro mais caro".
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Custo logístico: as autopeças também sofrem com o aumento das taxas, porque "muitas vezes vêm junto com os carros importados".
Os componentes mais vulneráveis a esse repasse são justamente os mais caros do sistema, como módulos eletrônicos, inversores e baterias. "Quando se fala em bateria e motor elétrico, não há alternativa: é exatamente o tipo de item que não tem opção fora da concessionária", afirma Viguini, lembrando que, mesmo para os componentes comuns, "quando o produto existe para aquele modelo, o preço é mais alto porque a cadeia de distribuição ainda não está madura".
O "apagão" de mão de obra e peças no interior
O maior desafio dessa nova realidade está localizado longe das grandes capitais. A primeira grande onda de elétricos vendidos no Brasil, entre 2022 e 2023, começa a sair da garantia de fábrica, mas o mercado regional não está pronto para o pós-venda.
"A procura muitas vezes não está alinhada com a disponibilidade de peças", revela Caio Viguini. "É comum ver concessionárias de carros chineses não preparadas adequadamente para resolver prontamente uma demanda de manutenção. Com esse cenário futuro, a tendência é piorar ainda mais."
A escassez de qualificação afeta até mesmo as grandes redes oficiais de atendimento nas cidades do interior:
"Certamente não há mão de obra especializada para essas manutenções fora da concessionária capaz de atender à demanda dos carros que estão saindo da garantia, pelo menos na nossa região", afirma o especialista. "Em muitas situações, percebemos que o carro, mesmo na garantia, tem que ficar parado na concessionária esperando não só a peça que precisa ser trocada, mas também o profissional. Muitas vezes, nem as próprias concessionárias locais contam com essa mão de obra qualificada e acabam tendo que trazer profissionais de Vitória ou de outros estados para resolver os problemas", conclui.
Por agora, a mudança da alíquota de importação dos eletrificados não parece, por si só, o grande problema, mas sim um adicional para uma estrutura ainda não tão madura ou bem elaborada.


