Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Apagão da internet torna impossível saber real extensão da repressão no Irã

Entidades operando fora do país estimam que mais de 500 pessoas teriam sido mortas, mas número não pode ser confirmado

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O apagão da internet no Irã, aliado à natureza extremamente repressiva de seu governo, torna impossível saber o real número de mortos pela repressão às manifestações por democracia e contra o custo de vida no país.

Entidades de direitos humanos baseadas no exterior afirmam que conseguiram confirmar mais de 500 mortes e mais de 10 mil presos.

Mesmo sabendo que esses grupos têm muitos contatos dentro do Irã, é necessário ler esses números com a devida cautela.

Em primeiro lugar, porque as manifestações são nacionais, ocorrendo inclusive em cidades mais distantes de Teerã, a capital. Isso dificulta a tabulação de números gerais, que podem ser ainda maiores do que os divulgados.

Além disso, muitas das entidades que estão divulgando os números são ligadas à oposição ao regime e a dissidentes exilados pelos aiatolás. Assim sendo, eles não agem necessariamente de forma neutra e podem ter interesse em inflar os dados.

Por fim, o bloqueio digital promovido pela ditadura foi feito justamente para impedir que as informações sobre a repressão fossem veiculadas fora do país. Além, claro, de tentar dificultar a comunicação entre os manifestantes.

A CNN e outros órgãos da imprensa internacional, no entanto, conseguiram confirmar a veracidade de vários vídeos revelando grande número de mortos e muita violência nas cidades do Irã.

Dado o histórico do país, a repressão injustificada pode ser até maior do que os números espalhados na internet.

O governo iraniano também afirma que sabotadores ligados a Israel e aos Estados Unidos estariam tentando insuflar os protestos, inclusive incitando a violência.

Estas acusações da ditadura dos aiatolás também são difíceis de comprovar, por razões parecidas com as relacionadas ao número de mortos.

Mas sabe-se que os agentes israelense conseguiram muito acesso no país nos últimos meses.

Ele conseguiram, entre outras coisas, matar o líder político do Hamas Ismail Haniyeh numa casa supostamente segura do governo iraniano que foi colocada à disposição do palestino pelo próprio líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei.

Diante desse cenário, o que se impõe é um quadro de opacidade quase absoluta: a repressão ocorre longe do escrutínio internacional, os números seguem imprecisos e as versões não podem ser verificadas de forma independente.

O apagão da internet não é um efeito colateral da crise, mas um instrumento central da estratégia do regime para controlar a narrativa, silenciar vítimas e ganhar tempo.

Enquanto a comunicação seguir bloqueada e jornalistas não tiverem acesso ao país, a real dimensão da violência no Irã continuará desconhecida.

E possivelmente muito mais séria do que aquilo que hoje é possível confirmar.