EUA fazem intervenção no Irã desde 1950, diz professor
Gunther Rudzit analisa a tensão entre Estados Unidos e Irã, destacando que o regime iraniano está no seu momento mais frágil desde 1979 e uma intervenção americana poderia ser contraproducente
O professor de Relações Internacionais da ESPM, Gunther Rudzit, analisou a atual crise no Irã e as possíveis consequências de uma intervenção militar dos Estados Unidos no país. Em entrevista ao CNN Novo Dia, o professor afirmou que os americanos intervêm na política iraniana desde os anos 1950, o que gerou um forte sentimento anti-americano na população.
"Os Estados Unidos intervêm na política iraniana desde os anos 1950, desde literalmente 1954 com a derrubada de um governo democraticamente eleito, nacionalista, que não tinha nada de comunista na época da guerra fria", explicou Rudzit. Ele destacou que essa intervenção colocou o Mohammad Reza Pahlavi como ditador aliado aos Estados Unidos, regime que só caiu em 1979 com a Revolução Islâmica.
O especialista alertou que uma intervenção americana agora poderia ser contraproducente. "Uma intervenção americana hoje pode ser que o tiro saia pela culatra. Em vez de conseguir fazer com que o governo caia, faça com que muitos, até os mais velhos, os mais conservadores, os comerciantes que estão apoiando esses protestos, mudem de lado", afirmou.
Fragilidade do regime iraniano
Rudzit avaliou que o regime do Irã está no seu momento mais frágil desde 1979, tanto do ponto de vista interno quanto externo. Internamente, os protestos atuais têm características únicas: "São protestos que não estão divididos em faixa etária, não está dividido em gênero, está em todas as camadas sociais do Irã".
O professor explicou que o desemprego entre os jovens ultrapassa 40% e que os protestos foram intensificados após a morte de uma jovem sob custódia da polícia religiosa. Além disso, o país está enfraquecido regionalmente após a guerra contra Israel no ano passado, quando perdeu importantes aliados como o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iêmen.
"Portanto, enfraquecido regionalmente, com o seu principal parceiro, a Rússia, atolado numa guerra na Ucrânia, você tem o Irã completamente enfraquecido interno, externamente e regionalmente", pontuou o professor.
O dia seguinte a uma possível queda do regime
Quanto ao cenário de uma eventual queda do governo iraniano, Rudzit apontou que a ausência de uma liderança clara é um grande problema. O filho do último monarca da família Pahlavi tenta se posicionar como líder, mas vive no exílio desde 1979 e não tem aceitação ampla na sociedade.
Outro fator complicador é a idade avançada do atual líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que tem mais de 80 anos e não possui um sucessor natural. "Por isso mesmo, se ele cair ou se ele mesmo falecer, pode haver uma disputa interna dentro do próprio regime para quem irá sucedê-lo", explicou.
"Isso é um cenário clássico de uma instabilidade que pode levar a uma guerra civil, sim, no Irã", alertou o especialista, demonstrando preocupação com as possíveis consequências de uma mudança de regime sem uma transição estruturada.


