Análise: Acordo provisório ignora causas centrais da guerra no Irã
Estados Unidos e Israel deram início ao conflito defendendo o fim do regime dos aiatolás, do programa nuclear iraniano e do uso de mísseis balísticos, mas esses temas não fazem parte do acerto

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já está usando o anúncio do acordo provisório de paz no Oriente Médio para declarar o que chama de “vitória total” na guerra contra o Irã.
Trata-se, mais uma vez, de uma tentativa do líder norte-americano de criar uma realidade paralela.
O acordo anunciado pelos dois países simplesmente ignora as principais questões que levaram ao início da guerra.
No fim de fevereiro, quando Israel e os Estados Unidos decidiram bombardear o Irã para matar o então líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, tanto Trump quanto o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu tentaram justificar os ataques com três argumentos.
Em primeiro lugar, defenderam abertamente a mudança de regime em Teerã. Trump e Netanyahu chegaram a fazer discursos incitando os iranianos a irem às ruas para derrubar a ditadura dos aiatolás e implantar uma democracia no país.
Houve, de fato, uma mudança no regime.
Mas muito diferente do que queriam os líderes norte-americanos e israelenses.
Em vez de uma democracia vibrante, os iranianos agora têm que lidar com uma ditadura ainda mais intransigente.
Com a morte de Ali Khamenei e de vários outros líderes políticos e militares, quem passou a dar as cartas de forma mais aberta em Teerã foram os comandantes da Guarda Revolucionária, o braço militar da ditadura.
Como sobreviveram aos ataques durante a guerra e participaram do acordo com Trump, esses líderes se sentem ainda mais fortalecidos para endurecer o regime e reorganizar sua influência na região.
O segundo argumento de Trump e Netanyahu era que os ataques destruiriam, de uma vez por todas, as capacidades e aspirações iranianas de construir bombas atômicas.
Os bombardeios, de fato, afetaram duramente os locais de enriquecimento de urânio do Irã, e vários líderes do programa nuclear também foram mortos. Isso vai, no mínimo, atrasar significativamente qualquer tentativa de Teerã de retomar seu projeto nuclear.
Mas o fato é que o destino do urânio iraniano e suas pretensões ainda serão objeto de negociações nos próximos meses entre norte-americanos e iranianos, o que continua gerando preocupação, especialmente em Israel.
Por fim, o terceiro argumento defendido pelos líderes (especialmente por Netanyahu) era o de que a guerra seria necessária para forçar o Irã a limitar suas defesas, em especial o programa de mísseis balísticos, capazes de atingir Israel, como ocorreu diversas vezes no último ano.
Esse tema sequer fez parte das negociações entre os dois lados, o que aumenta a insatisfação do governo israelense.
Netanyahu e seus ministros afirmam que os interesses de Israel não foram levados em conta. Pelo contrário, contestam a legitimidade dos Estados Unidos para negociar, em seu nome, o fim da guerra com o Hezbollah, no Líbano.
Ministros de ultradireita já disseram que não pretendem respeitar os termos do acordo e não descartam novos bombardeios contra o Líbano, inclusive contra a capital, Beirute. Isso apesar de o Irã ter condicionado o acordo a esse tipo de compromisso.
Durante as negociações, Trump e Netanyahu tiveram várias conversas telefônicas. Algumas marcadas por tensão, com relatos de discussões duras.
Isso mostra que, além de não terem alcançado seus principais objetivos na guerra, os dois aliados também saem dela mais distantes entre si.
Apesar disso, Trump vai continuar proclamando vitória, bem ao seu estilo.
Mas a realidade é que o acordo provisório, infelizmente, não é garantia de uma paz sustentável no Oriente Médio.



