Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Análise: Boicote de Trump ao G20 vira teste para o multilateralismo

Maiores economias do mundo ainda discutem se cúpula terá ou não declaração final após Casa Branca vetar a ida de autoridades americanas para a reunião na África do Sul

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O boicote do presidente Donald Trump à Cúpula do G20, que será realizada neste fim de semana em Joanesburgo, na África do Sul, transformou-se em um teste crítico para o multilateralismo e para a própria coesão do grupo.

O bloco das maiores economias do mundo está dividido sobre como reagir à decisão de Trump, que proibiu representantes do seu governo de participarem do encontro sob o argumento infundado de que haveria “abusos de direitos humanos” contra a minoria branca que vive na África do Sul.

Países tradicionalmente alinhados a Washington — como Japão, Reino Unido e Austrália — indicaram preferência por uma postura mais cautelosa.

Esses governos sugeriram evitar decisões que possam ser interpretadas como provocação aos EUA e, em alguns casos, defenderam até mesmo que a reunião não tenha uma declaração final.

A África do Sul, com apoio consistente do chamado Sul Global, segue na direção oposta.

Pretende manter na agenda discussões sobre justiça social, taxação de super-ricos, gestão sustentável das dívidas das nações mais pobres e financiamento da transição energética — além de buscar uma declaração final substancial, mesmo sem a participação americana.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega a Joanesburgo nesta sexta-feira e o governo brasileiro apoia firmemente tanto a agenda proposta pelos sul-africanos quanto a necessidade de um documento final robusto.

Esvaziamento do G20

O boicote reforça ainda mais as suspeitas de que Trump pretende esvaziar o G20 a partir do ano que vem, quando os Estados Unidos assumirão a presidência do grupo.

Em reunião ministerial realizada em setembro, em Nova York, a representante do governo americano Allison Hooker deixou claro que Washington pretende retirar da agenda todos os temas que considera “secundários”.

Segundo ela, os EUA querem “reorientar o G20” exclusivamente para assuntos econômicos tradicionais, eliminando debates sobre clima, gênero, paz e desigualdade — uma guinada que rompe com a evolução recente do fórum.

A ausência dos americanos em Joanesburgo, contudo, abre espaço para uma reorganização do equilíbrio de forças dentro do grupo e para a articulação de políticas multilaterais que vinham sendo sistematicamente bloqueadas por Washington.

O governo sul-africano afirma que os EUA já haviam antecipado que vetariam qualquer menção a mudanças climáticas no texto final, além de rejeitar discussões sobre desigualdade, inclusão, combate à fome e transição energética.

A retirada desse veto cria a possibilidade de um comunicado final mais ambicioso — desde que eventuais resistências de aliados próximos dos EUA sejam superadas.

Divisões entre os países ricos

Entre as nações desenvolvidas, há diferenças claras de postura. A França já indicou que pretende destacar a transição energética, reforçar a cooperação empresarial com a África do Sul e fazer gestos simbólicos em relação à luta contra o apartheid.

Diplomatas franceses afirmam que o presidente Emmanuel Macron apoiará uma declaração final mesmo sem a presença americana, ressaltando que o boicote não deve paralisar o funcionamento do bloco.

A África do Sul estruturou a cúpula em torno de temas que refletem prioridades do Sul Global e do continente africano, incluindo:

  • Preparação para desastres climáticos cada vez mais frequentes;
  • Estratégias de dívida sustentável para países de baixa renda;
  • Financiamento da transição energética;
  • Uso justo e sustentável de minerais críticos, como lítio e cobalto;

Pela primeira vez, o G20 negociou um texto específico sobre minerais críticos, enfatizando extração responsável, beneficiamento local e repartição equitativa dos ganhos — prioridades históricas para países africanos, latino-americanos e asiáticos.

O encontro também contará com a participação ativa da União Africana, agora membro permanente do G20, o que reforça a capacidade do continente de atuar como bloco e de pressionar por maior justiça nas cadeias globais de valor.

Além de Trump, os líderes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Claudia Sheinbaum (México) e Javier Milei (Argentina) não irão a Joanesburgo. Diferentemente do americano, porém, todos enviarão representantes de alto nível, garantindo participação nas negociações.