Análise: Boicote de Trump ao G20 vira teste para o multilateralismo
Maiores economias do mundo ainda discutem se cúpula terá ou não declaração final após Casa Branca vetar a ida de autoridades americanas para a reunião na África do Sul

O boicote do presidente Donald Trump à Cúpula do G20, que será realizada neste fim de semana em Joanesburgo, na África do Sul, transformou-se em um teste crítico para o multilateralismo e para a própria coesão do grupo.
O bloco das maiores economias do mundo está dividido sobre como reagir à decisão de Trump, que proibiu representantes do seu governo de participarem do encontro sob o argumento infundado de que haveria “abusos de direitos humanos” contra a minoria branca que vive na África do Sul.
Países tradicionalmente alinhados a Washington — como Japão, Reino Unido e Austrália — indicaram preferência por uma postura mais cautelosa.
Esses governos sugeriram evitar decisões que possam ser interpretadas como provocação aos EUA e, em alguns casos, defenderam até mesmo que a reunião não tenha uma declaração final.
A África do Sul, com apoio consistente do chamado Sul Global, segue na direção oposta.
Pretende manter na agenda discussões sobre justiça social, taxação de super-ricos, gestão sustentável das dívidas das nações mais pobres e financiamento da transição energética — além de buscar uma declaração final substancial, mesmo sem a participação americana.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega a Joanesburgo nesta sexta-feira e o governo brasileiro apoia firmemente tanto a agenda proposta pelos sul-africanos quanto a necessidade de um documento final robusto.
Esvaziamento do G20
O boicote reforça ainda mais as suspeitas de que Trump pretende esvaziar o G20 a partir do ano que vem, quando os Estados Unidos assumirão a presidência do grupo.
Em reunião ministerial realizada em setembro, em Nova York, a representante do governo americano Allison Hooker deixou claro que Washington pretende retirar da agenda todos os temas que considera “secundários”.
Segundo ela, os EUA querem “reorientar o G20” exclusivamente para assuntos econômicos tradicionais, eliminando debates sobre clima, gênero, paz e desigualdade — uma guinada que rompe com a evolução recente do fórum.
A ausência dos americanos em Joanesburgo, contudo, abre espaço para uma reorganização do equilíbrio de forças dentro do grupo e para a articulação de políticas multilaterais que vinham sendo sistematicamente bloqueadas por Washington.
O governo sul-africano afirma que os EUA já haviam antecipado que vetariam qualquer menção a mudanças climáticas no texto final, além de rejeitar discussões sobre desigualdade, inclusão, combate à fome e transição energética.
A retirada desse veto cria a possibilidade de um comunicado final mais ambicioso — desde que eventuais resistências de aliados próximos dos EUA sejam superadas.
Divisões entre os países ricos
Entre as nações desenvolvidas, há diferenças claras de postura. A França já indicou que pretende destacar a transição energética, reforçar a cooperação empresarial com a África do Sul e fazer gestos simbólicos em relação à luta contra o apartheid.
Diplomatas franceses afirmam que o presidente Emmanuel Macron apoiará uma declaração final mesmo sem a presença americana, ressaltando que o boicote não deve paralisar o funcionamento do bloco.
A África do Sul estruturou a cúpula em torno de temas que refletem prioridades do Sul Global e do continente africano, incluindo:
- Preparação para desastres climáticos cada vez mais frequentes;
- Estratégias de dívida sustentável para países de baixa renda;
- Financiamento da transição energética;
- Uso justo e sustentável de minerais críticos, como lítio e cobalto;
Pela primeira vez, o G20 negociou um texto específico sobre minerais críticos, enfatizando extração responsável, beneficiamento local e repartição equitativa dos ganhos — prioridades históricas para países africanos, latino-americanos e asiáticos.
O encontro também contará com a participação ativa da União Africana, agora membro permanente do G20, o que reforça a capacidade do continente de atuar como bloco e de pressionar por maior justiça nas cadeias globais de valor.
Além de Trump, os líderes Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Claudia Sheinbaum (México) e Javier Milei (Argentina) não irão a Joanesburgo. Diferentemente do americano, porém, todos enviarão representantes de alto nível, garantindo participação nas negociações.



