Análise: Carta aberta de Lula a Trump não deve reverter tarifaço
Presidente brasileiro escreveu artigo afirmando que quer criar “um diálogo aberto e franco”, mas texto também dá respostas fortes e claras aos ataques americanos contra a soberania do Brasil
O artigo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escreveu para o jornal The New York Times é uma verdadeira carta aberta a Donald Trump, misturando convites para o diálogo com duras críticas aos ataques americanos contra a soberania do Brasil.
O convite para conversas fica claro logo na primeira linha, quando Lula diz que decidiu escrever o texto “para estabelecer um diálogo aberto e franco com o presidente dos Estados Unidos”.
O gesto, no entanto, dificilmente abrirá as portas para as desejadas negociações entre os dois governos – e também não deve ajudar a reverter o tarifaço imposto contra o país.
Os canais para essas conversas foram fechados por determinação do próprio Trump, que estaria interessado em interferir na política interna brasileira, segundo avaliação do Palácio do Planalto.
Tarifaço “equivocado” e “ilógico”
Passada a menção ao diálogo, o tom de Lula no texto se torna incisivo e ele passa a responder de forma bastante clara aos ataques da administração americana contra a soberania do Brasil.
O presidente brasileiro chamou o tarifaço contra o país de “equivocado” e “ilógico” e afirmou que a motivação da Casa Branca é política.
Ele também defendeu o PIX e disse estar orgulhoso da independência do STF no julgamento do processo da tentativa de golpe de estado, que condenou os principais réus envolvidos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (que não é mencionado no texto).
O principal recado de Lula, no entanto, é político. E é claríssimo.
“Presidente Trump, continuamos abertos a negociar qualquer coisa que possa trazer benefícios mútuos. Mas a democracia e a soberania do Brasil não estão em jogo”, diz ele.
O líder brasileiro apresentou vários argumentos que comprovariam o equívoco das tarifas impostas contra os produtos do país e era mais do que esperado que ele defendesse a soberania nacional.
Mas, mesmo corretas, essas afirmações não serão interpretadas dessa forma pela administração americana.
Pelo contrário, o texto muito provavelmente vai ser entendido como uma provocação a Trump.
Assim, na melhor das hipóteses, a relação entre os dois países permanecerá exatamente onde está. Ou as coisas podem até piorar.
Um importante diplomata ouvido pela CNN acredita que o texto poderia, inclusive, acelerar a intenção de Trump de tomar novas medidas contra o Brasil, em especial contra os juízes do STF que votaram pela prisão de Bolsonaro.
Outra importante fonte que acompanha de perto as tentativas de negociações com Washington acredita que novas sanções são esperadas, mas provavelmente centradas em indivíduos ligados aos Judiciário e ao governo – e não contra o país ou sua economia, visto que as tarifas de 50% já bloqueiam de forma praticamente total o comércio dos produtos atingidos.
O artigo de Lula, portanto, cumpre o papel de reafirmar posições do governo brasileiro e mandar mensagens políticas internas e externas.
Mas, no tabuleiro das relações com os EUA, dificilmente mudará o rumo dos acontecimentos.



