Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Análise: com ou sem censura, TVs árabes e israelenses distorcem cobertura em Gaza

Israel aprovou lei para fechar escritório e banir as operações da Al Jazeera, do Catar, mas suas emissoras também restringem a cobertura da tragédia humanitária no território palestino

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O Knesset, o parlamento de Israel, aprovou uma lei proposta pelo governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para fechar escritórios e banir emissoras de televisão estrangeiras que são consideradas “uma ameaça nacional”, entre elas a Al Jazeera, do Catar.

Censurar a mídia – estrangeira ou local – é uma medida polêmica e extrema, normalmente associada a ditaduras e não a países como Israel, que costuma se vangloriar de ser “a única democracia do Oriente Médio”.

Com a lei, o governo israelense poderá banir a Al Jazeera por 45 dias, um prazo renovável até o fim da guerra.

O ministro das Comunicações israelense, Shlomo Karai, acusou a emissora de encorajar hostilidades contra o país.

“É impossível tolerar um meio de comunicação agindo internamente contra nós, ainda mais em tempo de guerra”, disse ele.

Democracia exige leituras distintas

A Al Jazeera é uma das mais importantes emissoras do mundo árabe e tem incomodado o governo israelense ao falar de forma praticamente ininterrupta sobre a guerra, com vários repórteres operando dentro da Faixa de Gaza e mostrando a tragédia humanitária no território palestino.

O professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP, Eugênio Bucci, disse a este blog lamentar que “uma medida restritiva desse porte esteja sendo aventada em Israel, que é uma democracia”.

Bucci reconhece a excepcionalidade da situação de um país em guerra e lembra que “várias outras nações democráticas também praticaram ou praticam a censura de informações quando enfrentam situações extremas como uma guerra”.

Mas ele argumenta que esse tipo de medida sempre tem um impacto negativo para a democracia e leva à polarização mais extrema.

“Eu compreendo as dificuldades, as exacerbações, as ansiedades de países que estão em guerra. Mas eu pergunto: esse tipo de medida é correta? Isso ajuda a paz? Isso ajuda a manter relações de confiança entre os cidadãos e entre a sociedade e o estado? Eu respondo que não. Eu respondo que o instrumento da censura é sempre deletério”, afirma ele.

“Para a democracia, é fundamental que se trabalhe num ambiente de liberdade, de busca da informação e de expressão de leituras distintas.”

Discursos extremistas – e sem cortes

Como afirma Bucci, recorrer à censura sempre têm efeitos absolutamente negativos. Da mesma forma, o uso da mídia para propaganda política e radical também não ajuda em nada o debate democrático.

Mas, com ou sem censura, é possível perceber que tanto as emissoras de TV árabes como as israelenses estão distorcendo a cobertura da guerra desde o início dela, com as atrocidades cometidas pelo Hamas no dia 7 de outubro do ano passado.

É fato que a Al Jazeera e outras TVs árabes costumam transmitir, muitas vezes sem cortes, discursos dos líderes do Hamas que chegam a encorajar a violência contra Israel – que eles chamam de “resistência”.

Na minha última passagem por Jerusalém Oriental, há três semanas, acompanhei justamente pela Al Jazeera um longo discurso de Ismail Haniyeh, o líder político do Hamas exilado no Catar, criticando a posição do governo israelense em relação às intermináveis negociações que buscam um cessar-fogo com a libertação dos reféns que estão nas mãos do grupo militante palestino.

Chama a atenção o fato de as palavras inflamatórias de Haniyeh terem sido veiculadas sem nenhum corte, por vários minutos seguidos. Como se fosse um pronunciamento oficial de um chefe de Estado.

Na sequência do discurso, imagens e mais imagens de destruição na Faixa de Gaza e palestinos mortos.

Coberturas distorcidas nos dois lados

A Al Jazeera veicula durante todo o dia imagens perturbadoras da guerra, mas fala quase nada do sofrimento do lado israelense – inclusive sobre a questão dos reféns. Uma óbvia distorção da realidade.

Exatamente o contrário acontece com as emissoras israelenses: as imagens da destruição avassaladora em Gaza são transmitidas por pouquíssimo tempo e com menos impacto.

Por outro lado, as TVs de Israel não param de falar da questão dos reféns e de relembrar as brutalidades de 7 de outubro.

Autocensura para evitar queda de audiência

Na minha mesma recente viagem, eu e um grupo de outros jornalistas conversamos reservadamente com um experimentado correspondente da área de Internacional de uma das TVs mais importantes de Israel.

Ele reconheceu que as emissoras israelenses praticamente não estão mostrando imagens do sofrimento causado por seus militares em Gaza.

Segundo ele, as poucas cenas que são veiculadas normalmente têm como fonte as Forças de Defesa de Israel.

A explicação do correspondente para isso é que o público israelense continua chocado com os bárbaros ataques do Hamas. Portanto, diz ele, a população do país ainda não estaria preparada e nem teria interesse em acompanhar o sofrimento dos palestinos, preferindo focar na sua própria dor.

O experiente jornalista foi muito franco e admitiu ainda que isso acontece com todas as TVs do país, no que ele classificou como “uma espécie de autocensura” das empresas para evitar quedas de audiência.

Polarização e sociedade tutelada

Bucci diz que o expediente de mostrar apenas parte da realidade tem efeitos muito negativos para qualquer sociedade.

“A supressão de um dos lados do debate, por mais incorreto que ele seja, favorece um ambiente de polarização. E a sociedade se sente tutelada, porque o poder não a enxerga como capaz de discernir entre uma coisa e outra, e portanto dedica a ela um tratamento que não supõe nela autonomia intelectual e maioridade política. Isso deixa sequelas na convivência democrática”, afirma.

E finaliza: “O ideal é que todas as vozes de opinião possam falar e que o debate seja feito por todos os lados”.