Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Análise: Cúpula do Brics reúne Putin, Xi e Modi mas rachas travam o bloco

Lula será a principal ausência da reunião de líderes do Sul Global, que estão divididos com relação à guerra no Oriente Médio e respostas às políticas do presidente Donald Trump

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A Cúpula do Brics que começa neste sábado (12) em Nova Délhi, na Índia, vai reunir no mesmo palco alguns dos principais líderes mundiais como Vladimir Putin, Xi Jinping e Narendra Modi, mas nem mesmo essa demonstração de força conseguirá esconder as divisões que hoje travam o bloco.

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, também confirmou sua participação, mesmo em meio à guerra em seu país.

O bloco, no entanto, está cada vez mais dividido, especialmente em relação aos conflitos no Oriente Médio e às políticas implementadas pelo presidente Donald Trump nas áreas comercial e diplomática. Isso dificulta sua operação e deve levar a um comunicado final mais fraco do que se poderia esperar.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um dos fundadores do Brics, será a principal ausência da cúpula, o que também ajuda a diminuir o peso do encontro. Na reta final da campanha eleitoral, Lula será representado pelo chanceler Mauro Vieira.

A ausência do presidente vai enfraquecer a única voz latino-americana em um fórum dominado pela presença da China, da Rússia e, cada vez mais, de países do Oriente Médio.

Presença dos líderes

Uma das presenças mais aguardadas da reunião é a do presidente Putin, que tem evitado viajar para o exterior por medo de ser preso por conta de um mandado de prisão expedido pelo Tribunal Penal Internacional pelo suposto sequestro de crianças ucranianas na guerra entre os dois países.

Como a Índia não reconhece a legitimidade do TPI, o líder russo vai aproveitar a oportunidade para mostrar que o seu país não está isolado, apesar de muitas sanções ocidentais contra o Kremlin.

Ele deve aproveitar a reunião, entre outras coisas, para defender um aumento do comércio intra-bloco usando as próprias moedas nacionais, um passo para enfraquecer o domínio do dólar nas transações internacionais.

Mas a grande estrela do evento será mesmo o líder chinês Xi Jinping, que desembarca com uma comitiva inédita em tamanho, com mais de 400 pessoas entre autoridades e empresários.

É um gesto de aproximação com a Índia depois de anos de tensão na fronteira do Himalaia e rivalidades regionais numa relação que continua marcada pela desconfiança.

A guerra envolvendo o Irã e os Estados Unidos é hoje o tema mais sensível para o Brics.

A presença de Pezeshkian em Nova Délhi vai expor um enorme dilema interno: o Irã é membro pleno do Brics e alvo de sanções ocidentais, mas países como a Índia evitam qualquer linguagem que soe como alinhamento automático a Teerã ou confronto direto com Estados Unidos e Israel.

Além disso, a presença também de outros países do Oriente Médio rivais do Irã, como os Emirados Árabes Unidos e o Egito, também vai impedir uma declaração final do grupo num tom forte contra o ocidente.

Isso ficou muito claro na reunião de chanceleres em maio, também em Nova Délhi, que terminou simplesmente sem nenhum comunicado conjunto.

Foi a segunda vez nas últimas reuniões em que isso aconteceu. A Índia precisou divulgar uma declaração própria, repleta de ressalvas e divergências registradas.

A segunda linha de fratura passa diretamente por Nova Délhi. A Índia resiste a qualquer tentativa de transformar o Brics em uma plataforma abertamente anti-americana e anti-ocidental.

Enquanto Rússia e China enxergam o bloco como instrumento para desafiar respectivamente a hegemonia do dólar e da ordem ocidental, o governo de Modi atua para conter esse movimento. Autoridades indianas têm repetido que o país "não tem como política" atacar o dólar e muito menos provocar os Estados Unidos.

A cautela não é por acaso. Donald Trump já ameaçou impor tarifas de até 100% a países que avancem na criação de alternativas à moeda americana. Isso limita o espaço para declarações mais duras e tende a produzir, mais uma vez, um texto final moderado, cheio de concessões e longe de qualquer consenso forte.

Há ainda uma terceira tensão, menos visível, mas igualmente relevante: a expansão acelerada do bloco.

O Brics passou de cinco para 11 membros plenos recentemente. A ampliação aumentou o peso global do grupo, mas também multiplicou os interesses e as divergências.

Um exemplo claro surgiu na cúpula do Rio, em 2025. Egito e Etiópia se recusaram a apoiar a candidatura da África do Sul a um assento permanente em um Conselho de Segurança reformado.

O impasse foi tão grande que a declaração final simplesmente omitiu o país africano, mencionando apenas Brasil e Índia. O caso deixou cicatrizes que ainda pesam nos bastidores desta cúpula.

A reunião deve produzir, no final, um documento que pode até ser robusto na forma, com defesa da reforma do Conselho de Segurança da ONU, do FMI e da Organização Mundial do Comércio e alguns avanços técnicos pontuais, especialmente em sistemas de pagamento e uso de moedas locais.

Mas o conteúdo deve ser bem mais fraco. Não se espera uma posição clara sobre o Irã e nem um confronto direto com os Estados Unidos. Tampouco soluções para as tensões internas que hoje limitam o funcionamento do grupo.