Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

COP30

Análise: Fala de Merz revela arrogância que prejudica negociações na COP

Chanceler disse que delegação alemã ficou feliz em deixar Belém e reafirmou que o seu governo não fará “política climática contra a economia”

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As declarações do chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, de que sua delegação ficou contente por deixar Belém, no Pará, para retornar ao país europeu revelam um preconceito e uma arrogância que prejudicam diretamente o ambiente de negociação da COP30.

Até recentemente, a Alemanha era vista como um dos principais atores globais na liderança climática — adotando políticas progressistas na defesa do meio ambiente e no corte de emissões de gases de efeito estufa.

Nos últimos tempos, porém, o país tem dado sinais claros de recuo, pressionado por crises econômicas internas, pelo aumento no custo da energia e por um debate político crescentemente dominado por narrativas populistas e nacionalistas.

As falas de Merz expõem esse movimento.

“Perguntei a alguns jornalistas que estiveram comigo no Brasil na semana passada quem gostaria de ficar lá. Ninguém levantou a mão. Todos ficamos contentes por regressar à Alemanha, sobretudo daquele local onde estávamos”, disse ele.

A declaração revela uma visão de mundo que carrega desprezo, ignorância e um sentimento de superioridade que são corrosivos para a construção de consensos multilaterais.

E isso tem impacto direto na COP30 por pelo menos dois motivos centrais.

Cúpula diretamente afetada

Primeiro, porque demonstra que líderes que deveriam estar à frente do debate climático ainda tomam decisões e formulam políticas a partir de visões distorcidas ou limitadas sobre realidades que desconhecem.

Belém e toda a Amazônia possuem desafios reais, como infraestrutura e desigualdade, mas também concentram o maior patrimônio ambiental do planeta e modos de vida que são parte fundamental das soluções para o clima.

Quando um chefe de governo de um país importante desqualifica esse contexto de forma tão superficial, ele sinaliza que não está disposto a ouvir as vozes dos povos da floresta, dos cientistas amazônicos e das lideranças locais que, de fato, têm defendido a região e preservado a floresta muito antes de qualquer compromisso formal assumido em conferências climáticas.

O segundo motivo é que o discurso de Merz reforça um paternalismo histórico dos países ricos: a ideia de que, por viverem em nações mais desenvolvidas, possuem maior discernimento para ditar o ritmo, as prioridades e os limites das políticas climáticas globais.

Já vimos esse tipo de postura em muitas COPs anteriores.

Isso entra em choque com a visão das lideranças do Sul Global, entre elas as brasileiras, que reivindicam, com toda razão, um espaço muito maior espaço e de mais equilíbrio nas decisões sobre o futuro climático do planeta.

A fala de Merz também explicita o recuo da Alemanha da posição de vanguarda que ocupou no debate climático nas últimas décadas.

Quando ele afirma que seu país “não faz mais política climática contra a economia”, indica uma inflexão clara: a prioridade passou a ser proteger a indústria alemã, mesmo que isso signifique reduzir a ambição climática.

Ao colocar economia e clima em polos opostos, Merz reforça uma falsa dicotomia, justamente no momento em que a comunidade científica é enfática ao afirmar que a inação climática trará custos econômicos muito maiores do que qualquer transição planejada.

A arrogância desse tipo de declaração impede o diálogo, reduz a capacidade de mediação e fecha portas para negociações mais complexas — especialmente em um momento em que a COP30 precisa justamente ampliar as pontes entre os países ricos e o chamado Sul Global.

Um porta-voz do governo da Alemanha disse disse a Malu Baccarin, da CNN Brasil, que Merz expressou "profundo respeito" pela realização da COP30 em Belém. O porta-voz disse ainda que o chanceler alemão "delineou a nova política climática do governo alemão" e prometeu uma contribuição significativa ao Fundo de Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). A suposta "nova política climática alemã", no entanto, é parte do problema -- visto que pretende proteger a indústria do país em contraposição ao combate às mudanças climáticas. Com relação ao fundo, a promessa de Merz continua sem o anúncio de um valor -- o que a torna, até o momento, na prática, uma promessa vazia.