Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Análise: Hamas e Israel voltam ao jogo de empurra em Gaza

Grupo palestino diz que aceita plano de Trump para desarmamento, mas apenas depois dos israelenses retirarem suas tropas do território; políticos de Israel exigem justamente o contrário

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A decisão do grupo palestino Hamas de aceitar a proposta do presidente Donald Trump para se desarmar poderia, finalmente, abrir caminho para uma paz duradoura com Israel e para a reconstrução da Faixa de Gaza.

Afinal de contas, o desarmamento do Hamas é condição essencial para a paz na região, assim como a retirada total das tropas israelenses que continuam ocupando mais da metade do território palestino.

Na prática, no entanto, os dois lados vão mergulhar mais uma vez no velho jogo de empurra que impede os avanços necessários para a resolução do conflito.

O próprio grupo palestino já deu a senha para isso.

Ghazi Hamad, uma das autoridades do grupo palestino, confirmou à CNN que o grupo chegou a um acordo com o Conselho de Paz criado por Trump para entregar suas armas.

Mas ele imediatamente colocou uma condição para isso: Israel teria que cumprir primeiro com todas as suas obrigações previstas no acordo de cessar-fogo fechado em outubro do ano passado. Entre elas, a retirada de suas tropas do território palestino e a liberação de muito mais ajuda humanitária para a população do enclave.

Do outro lado, a reação foi previsível.

O governo israelense permanece oficialmente em silêncio, mas ministros e políticos do país já deixaram claro que não confiam no Hamas e que é o grupo palestino que tem que agir primeiro, se desarmando completamente antes de qualquer avaliação sobre a retirada das tropas.

O resultado é um impasse, como já vimos em muitos outros momentos desta guerra, baseado na total desconfiança que um lado tem em relação ao outro.

É importante também destacar que desde o início da atual trégua, os dois lados acumularam violações do acordo de cessar-fogo.

Ataques israelenses continuaram ao longo dos últimos meses, com bombardeios e operações quase diárias dentro de Gaza, deixando milhares de mortos.

Ao mesmo tempo, o Hamas manteve a estratégia de usar negociações como instrumento tático, prolongando conversas, ganhando tempo e evitando concessões definitivas.

O acordo proposto pelo chamado Conselho de Paz criado por Trump tenta justamente contornar esse problema, prevendo um processo em etapas.

O Hamas entregaria armamentos a um comitê técnico sob supervisão internacional, enquanto Israel recuaria suas tropas de forma gradual. No papel, é um mecanismo pensado para criar simultaneidade e reduzir riscos.

Na prática, esbarra no ponto mais sensível: nenhuma das partes acredita que a outra vai cumprir o combinado. Além disso, os dois lados têm que fazer cálculos políticos.

Mudanças decisivas

No Hamas, o político e militante Khalil al-Hayya assumiu o comando do grupo e sabe que tem poucas opções viáveis para tentar melhorar a vida dos palestinos em Gaza.

O grupo chegou a anunciar a dissolução do seu governo no enclave numa tentativa de reposicionamento e para tentar colocar a pressão de Trump sobre os israelenses, que teriam que fazer o próximo movimento.

Do lado israelense, o cálculo é igualmente político.

O país terá eleições em outubro e o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta um enorme desgaste nas pesquisas.

Nesse contexto, qualquer concessão ao Hamas pode ser explorada como sinal de fraqueza. E essa é a última coisa que Netanyahu deseja nesse momento.

No fim das contas, cada lado espera o movimento do outro, enquanto mantém pressão no terreno e endurece o discurso público.

Enquanto isso, a população palestina continua sofrendo, com quase dois milhões de pessoas vivendo em tendas e sem acesso sequer à alimentação e cuidados básicos.