Análise: Radicais de Israel e do Hamas vão sabotar plano de paz de Trump
Proposta exige que os dois lados façam concessões importantes, mas isso seria interpretado como uma derrota pelos extremistas
Os elementos mais radicais do governo de Israel e do grupo militante palestino Hamas vão explorar todas as oportunidades para sabotar o plano de paz anunciado na segunda-feira (29) pelo presidente Donald Trump.
A proposta de Trump para encerrar a guerra na Faixa de Gaza exige que os dois lados façam concessões difíceis e profundas para alcançar a paz. Mas, para muitos, essas concessões são vistas como derrotas.
O Hamas teria, obviamente, que libertar e devolver de uma vez a Israel todos os reféns ainda mantidos em cativeiros subterrâneos em Gaza, além dos restos mortais dos prisioneiros mortos em suas mãos.
O grupo palestino também teria que se desarmar e abandonar definitivamente a administração da Faixa de Gaza — que passaria a ser conduzida inicialmente por um gabinete internacional de transição, sob o comando direto de Trump, e depois por uma Autoridade Palestina reformada.
Israel, por sua vez, se comprometeria a retirar todos os soldados do território palestino e aceitar a presença de uma força multinacional para controlar Gaza.
As Forças de Defesa de Israel poderiam atuar apenas nos perímetros entre os territórios.
Além disso, os israelenses teriam que aceitar a administração da Faixa pela Autoridade Palestina e, num futuro não tão distante, discutir seriamente a criação de um Estado da Palestina.
Reações dos radicais
No papel, trata-se de um plano razoável e, até certo ponto, equilibrado. O problema é que os radicais, dos dois lados, não demonstram qualquer disposição em aceitar tais exigências.
Para a liderança do Hamas, entregar suas armas significaria se render e perder a razão de existir — o grupo reafirma sua identidade como resistência total a Israel.
Entregar os reféns — que deveria ser o ponto de partida de qualquer diálogo — faria o grupo abdicar do seu principal instrumento de barganha em futuras negociações, na visão dos líderes mais duros.
E transferir a administração de Gaza à Autoridade Palestina seria visto como sua maior derrota, já que os grupos são inimigos históricos na política palestina.
Do outro lado, radicais de ultra-direita em Israel — que integram o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — também encaram o plano como um revés, pois se opõe ao seu projeto de anexar Gaza e expulsar definitivamente os palestinos de seu território.
Isso configuraria uma limpeza étnica e um crime de guerra, mas é a meta declarada de alguns ministros israelenses, que também defendem a anexação da Cisjordânia, a outra parte de um eventual Estado palestino.
Esses extremistas poderiam até abandonar a coalizão de Netanyahu, provocando novas eleições e, assim, levando todo o plano de volta à estaca zero.
O próprio Netanyahu reitera sua oposição a qualquer discussão sobre a criação de um Estado palestino. Sua carreira política foi construída em torno da negação dessa legítima aspiração nacional e direito dos palestinos, mas ele não dá sinais de que vá mudar de posição.
Pressão externa
Nesse contexto, a única possibilidade real de o plano de Trump avançar seria com o aumento da pressão sobre os radicais — deixando claro que eles não têm alternativas.
No caso do Hamas, essa pressão precisaria vir de países árabes com influência sobre o grupo, como o Catar, e também do Irã, seu principal financiador.
Quanto a Israel, caberia ao próprio Trump exercer pressão — inclusive com a ameaça de suspender o fornecimento de armas às Forças de Defesa de Israel — para obrigar o governo a conter os extremistas internos e a buscar uma paz duradoura.
A dúvida é se esses atores externos estão dispostos a manter a pressão pelo tempo necessário até que os dois lados aceitem que essa é a única saída viável.
No momento, no entanto, esse cenário parece altamente improvável.
E o plano, infelizmente, apresenta inúmeras oportunidades para que um lado acuse o outro de não ter cumprido sua parte. Isso certamente será explorado por aqueles que não querem a existência de dois estados vivendo em paz, lado a lado.



