Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Brasil teme que EUA se tornem fonte de instabilidade para América Latina

Ainda assim, interlocutores dizem que Brasil estaria fora da mira imediata de tentativas de intervenção, visto que a diplomacia conseguiu reverter a tendência iniciada com aplicação de tarifas e sanções

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A nova Estratégia de Segurança Nacional adotada pelo presidente Donald Trump pode transformar os Estados Unidos em uma grande fonte de instabilidade para a América Latina, segundo apuração da CNN Brasil com fontes do governo brasileiro.

Essa instabilidade já está sendo gerada pelas ameaças da Casa Branca de interferir política e até militarmente na região para atingir os seus interesses econômicos e estratégicos.

O maior exemplo é o que está acontecendo na crise com a Venezuela, com deslocamento de mais de 15 mil militares americanos para a costa do país, os ataques contra barcos que supostamente estariam levando drogas para os Estados Unidos e até a apreensão de um grande petroleiro que transportava petróleo venezuelano.

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada na semana passada, afirma que os objetivos do país para o hemisfério podem ser resumidos em duas palavras: “alinhar e expandir”, sinalizando a intenção de ampliar a presença política, militar e econômica no continente.

O texto faz referências diretas à doutrina Monroe, formulada no início do século XIX pelo então presidente James Monroe, que defendia que a América Latina deveria permanecer sob influência direta de Washington.

De acordo com uma fonte que acompanha de perto as movimentações estratégicas no continente, a nova estratégia americana representa uma “confirmação no papel” do que Trump já vinha fazendo na prática desde o começo do seu segundo mandato.

Segundo essa avaliação, Trump vai reverter décadas de desinteresse em relação à América Latina.

Essa quase negligência dos EUA com a região, paradoxalmente, ajudou a reduzir tensões de diversos países com Washington e permitiu maior margem de autonomia para o continente.

Agora, essa fase acabou, e o temor é que o governo Trump passe a adotar uma postura mais assertiva e ideologizada, centrada exclusivamente em interesses próprios de segurança, comércio e contenção da China, sem apresentar qualquer proposta concreta para enfrentar os desafios estruturais latino-americanos.

Uma segunda fonte do governo diz que a estratégia é basicamente uma confirmação da visão de mundo de Trump e seus aliados, que já havia sido expressada desde a campanha eleitoral.

A fonte, no entanto, afirma que o Brasil não estaria na mira imediata de uma nova tentativa de interferência americana.

O interlocutor lembra que o presidente dos EUA tentou fazer justamente isso ao aumentar as tarifas e aplicar sanções contra autoridades brasileiras, mas que a estratégia diplomática adotada pelo país acabou conseguindo reverter essa tendência.

Um outro observador ouvido pela CNN Brasil lembra que o documento não oferece uma linha sequer sobre propostas para o desenvolvimento regional.

“Não há nada sobre crescimento, infraestrutura ou políticas sociais. É uma agenda negativa, focada apenas em conter adversários, restringir a presença chinesa e tratar problemas de drogas e imigração como ameaças unilaterais aos Estados Unidos”, afirmou.

Essa seria, portanto, uma estratégia ruim, porque parte da premissa de que os problemas latino-americanos só existem na medida em que afetam negativamente os Estados Unidos.

A leitura é que Trump está ressuscitando uma versão explícita da doutrina Monroe com um “corolário Trump” que legitima intervenções, inclusive militares, sempre que Washington julgar necessário.

A diferença, dizem essas mesmas fontes, é que a doutrina original foi proclamada por uma potência em ascensão, buscando se afirmar no hemisfério.

Agora, seria proclamada por um país que muitos veem em declínio relativo, preocupado com a aproximação chinesa e lidando com instituições internas corroídas.

É justamente esse contexto que tornaria os Estados Unidos mais perigoso para a região, já que um país que se percebe em perda de influência tende a agir de forma mais impulsiva e menos previsível.

Isso transforma os EUA, ironicamente, numa das principais fontes de instabilidade para a América Latina hoje.