Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

COP30

COP30 é última chance para ação climática, diz presidente do Timor-Leste

Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, José Ramos-Horta, vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1996, disse estar preocupado com as divisões atuais no cenário global

José Ramos-Horta, presidente de Timor-Leste, discursa durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP28)  • Sean Gallup/Getty Images
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O presidente do Timor-Leste e vencedor do Prêmio Nobel da Paz de 1996, José Ramos-Horta, disse à CNN Brasil que a COP30 é a última chance para a comunidade global conseguir resultados concretos na luta contra as mudanças climáticas.

“Se algum país pode alcançar objetivos concretos de avançar mais na recuperação da nossa natureza tão violada ao longo de séculos, é o Brasil de hoje, com o presidente Lula”, afirmou ele.

“Se perdemos essa oportunidade com alguém com o total compromisso de Lula (no comando da COP), com alguém com o seu carisma, com a importância do Brasil, então não vamos mais conseguir acordos concretos. Ninguém mais vai conseguir e perde-se uma grande oportunidade. É muito urgente, é importante para salvar a natureza”, disse ele, em entrevista exclusiva.

O Timor-Leste, um país lusófono que ocupa metade da ilha de Timor, no sudeste asiático, é uma das nações mais jovens do mundo, com independência restaurada apenas em 2002. Trata-se também de um dos países mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas, dependendo da ajuda internacional para evitar catástrofes causadas por eventos extremos.

Ramos-Horta, que além de presidente é um dos líderes históricos da luta pela independência timorense, reforça que a urgência da ação climática não é apenas simbólica.

Apesar de reconhecer o potencial do Brasil na questão ambiental, Ramos-Horta se mostra preocupado quanto aos resultados práticos da conferência. “Não estou otimista porque o ambiente mundial nunca esteve tão dividido, tão negativo”, disse. “Vejam a Europa, dividida, sem liderança clara. Nos Estados Unidos, Donald Trump já declarou que não acredita nas mudanças climáticas, chamando-as de 'fake news'. Ele busca reativar a indústria petrolífera, o carvão e todas as outras extrações minerais nocivas ao ambiente.”

O presidente timorense destacou o simbolismo de o Brasil sediar a COP30 em plena Amazônia. “O papa, em Roma, é o guardião da fé católica. A Arábia Saudita é a guardiã de Meca para os muçulmanos. O Brasil é dono, proprietário e guardião da maior reserva de água da floresta do mundo. A realização da COP30 (na Amazônia) é profundamente simbólica, mesmo com muitas dificuldades logísticas”, disse ele.

Ramos-Horta também comentou o papel estratégico da China no cenário climático global, com o país se posicionando para ocupar o vácuo deixado pelos Estados Unidos na liderança das ações climáticas. “A China é a única superpotência que sente na própria casa os efeitos das mudanças climáticas. É o maior investidor em energia renovável e sua indústria solar é a mais avançada do mundo. Mas se não houver consenso internacional, será difícil. A China vai acelerar a transição para renováveis porque é do interesse dela, mas isso não substitui acordos globais”, concluiu.