Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Entenda por que decapitar a liderança não garante mudança de regime no Irã

República Islâmica criou ao longo de décadas um sistema político resiliente e que não depende de apenas uma pessoa

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O assassinato do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, foi uma inegável vitória para os Estados Unidos e Israel, mas não vai levar, por si só, a uma mudança de regime na República Islâmica.

Khamenei era, de fato, um ditador e concentrava as decisões mais importantes em suas mãos.

Mas os aiatolás souberam construir ao longo de décadas, desde a revolução islâmica de 1979, um regime político resiliente, sólido e que não depende de apenas uma pessoa para seu funcionamento.

A República Islâmica mistura fortes instituições políticas, militares e religiosas, todas também com interesses econômicos que servem de estímulo para defender sua sobrevivência.

Todas essas instituições funcionam como pilares de sustentação do regime, com um contrabalançando o peso do outro e desenhados para manter o status quo mesmo sob ataque.

O mais importante desses pilares é a Guarda Revolucionária, que atua para garantir a segurança e manter um mínimo de coesão interna, apelando, inclusive, para a violência e coerção.

Não é por acaso que Estados Unidos e Israel mantêm como sua prioridade máxima os ataques contra a guarda e a eliminação de seus líderes.

Sabendo disso, no entanto, a Guarda Revolucionária, assim como as outras instituições da república, mantém listas de sucessão atualizadas com pelo menos quatro nomes para cada posto. Tudo para garantir a sobrevivência do regime.

Além disso, a sucessão no topo não significa vazio de poder.

Uma nova liderança no Irã

Há, dentro do regime iraniano, figuras religiosas e militares com apoio político suficiente para assumir a liderança ou compor uma direção colegiada.

As articulações entre clérigos influentes e comandantes da Guarda Revolucionária, além do apoio da milícia Basij, tendem a privilegiar a continuidade, não a ruptura.

De certa forma, o sistema foi desenhado exatamente para absorver choques e seguir funcionando, mesmo sob intensos ataques.

Além das maquinações políticas, o regime também conseguiu construir uma ideologia de Estado que combina religião, nacionalismo e aparato de segurança.

No ocidente dá-se muito destaque, naturalmente, a grupos dissidentes que atuam contra a ditadura teocrática.

Mas uma boa parte da população apoia profundamente os aiatolás, além de serem muito nacionalistas. Um sentimento que cresce quando acontecem ataques estrangeiros.

Há ainda a possibilidade de que a morte de Khamenei seja explorada como ferramenta de mobilização interna.

Possível resistência no país

O regime tem experiência em transformar perdas em narrativa de resistência, enquadrando o episódio como agressão externa e convertendo o líder morto em mártir. Em contextos assim, setores conservadores e nacionalistas tendem a se fechar em torno do poder estabelecido, em vez de abandoná-lo.

Esses setores também têm interesses econômicos a defender, já que controlam boa parte das maiores empresas e setores da economia iraniana, especialmente o petróleo.

Para completar, a oposição segue muito fragmentada e sem um líder aparente. Isso é resultado, inclusive, de uma repressão sistemática e violenta contra qualquer tipo de dissidência.

Existe, claro, muita insatisfação social, com protestos recorrentes e críticas à teocracia.

Mas não há, neste momento, um movimento político unificado, com liderança clara e capacidade organizativa suficiente para substituir o regime no curto prazo.

As forças de segurança mantêm controle rigoroso sobre as ruas e sobre qualquer tentativa de articulação mais ampla.

Novos líderes no país podem ser pragmáticos e tentar algum tipo de negociação para o fim do conflito e podem até defender uma diminuição nas críticas e ataques aos Estados Unidos e Israel.

Mas dificilmente aceitariam a mudança total do regime.