Entenda por que decapitar a liderança não garante mudança de regime no Irã
República Islâmica criou ao longo de décadas um sistema político resiliente e que não depende de apenas uma pessoa

O assassinato do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, foi uma inegável vitória para os Estados Unidos e Israel, mas não vai levar, por si só, a uma mudança de regime na República Islâmica.
Khamenei era, de fato, um ditador e concentrava as decisões mais importantes em suas mãos.
Mas os aiatolás souberam construir ao longo de décadas, desde a revolução islâmica de 1979, um regime político resiliente, sólido e que não depende de apenas uma pessoa para seu funcionamento.
A República Islâmica mistura fortes instituições políticas, militares e religiosas, todas também com interesses econômicos que servem de estímulo para defender sua sobrevivência.
Todas essas instituições funcionam como pilares de sustentação do regime, com um contrabalançando o peso do outro e desenhados para manter o status quo mesmo sob ataque.
O mais importante desses pilares é a Guarda Revolucionária, que atua para garantir a segurança e manter um mínimo de coesão interna, apelando, inclusive, para a violência e coerção.
Não é por acaso que Estados Unidos e Israel mantêm como sua prioridade máxima os ataques contra a guarda e a eliminação de seus líderes.
Sabendo disso, no entanto, a Guarda Revolucionária, assim como as outras instituições da república, mantém listas de sucessão atualizadas com pelo menos quatro nomes para cada posto. Tudo para garantir a sobrevivência do regime.
Além disso, a sucessão no topo não significa vazio de poder.
Uma nova liderança no Irã
Há, dentro do regime iraniano, figuras religiosas e militares com apoio político suficiente para assumir a liderança ou compor uma direção colegiada.
As articulações entre clérigos influentes e comandantes da Guarda Revolucionária, além do apoio da milícia Basij, tendem a privilegiar a continuidade, não a ruptura.
De certa forma, o sistema foi desenhado exatamente para absorver choques e seguir funcionando, mesmo sob intensos ataques.
Além das maquinações políticas, o regime também conseguiu construir uma ideologia de Estado que combina religião, nacionalismo e aparato de segurança.
No ocidente dá-se muito destaque, naturalmente, a grupos dissidentes que atuam contra a ditadura teocrática.
Mas uma boa parte da população apoia profundamente os aiatolás, além de serem muito nacionalistas. Um sentimento que cresce quando acontecem ataques estrangeiros.
Há ainda a possibilidade de que a morte de Khamenei seja explorada como ferramenta de mobilização interna.
Possível resistência no país
O regime tem experiência em transformar perdas em narrativa de resistência, enquadrando o episódio como agressão externa e convertendo o líder morto em mártir. Em contextos assim, setores conservadores e nacionalistas tendem a se fechar em torno do poder estabelecido, em vez de abandoná-lo.
Esses setores também têm interesses econômicos a defender, já que controlam boa parte das maiores empresas e setores da economia iraniana, especialmente o petróleo.
Para completar, a oposição segue muito fragmentada e sem um líder aparente. Isso é resultado, inclusive, de uma repressão sistemática e violenta contra qualquer tipo de dissidência.
Existe, claro, muita insatisfação social, com protestos recorrentes e críticas à teocracia.
Mas não há, neste momento, um movimento político unificado, com liderança clara e capacidade organizativa suficiente para substituir o regime no curto prazo.
As forças de segurança mantêm controle rigoroso sobre as ruas e sobre qualquer tentativa de articulação mais ampla.
Novos líderes no país podem ser pragmáticos e tentar algum tipo de negociação para o fim do conflito e podem até defender uma diminuição nas críticas e ataques aos Estados Unidos e Israel.
Mas dificilmente aceitariam a mudança total do regime.



