Américo Martins
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Américo Martins

Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países

Prisão de Andrew é tiro certeiro na modernização da monarquia britânica

Rei Charles III vinha tentando aproximar a família real dos súditos, mas envolvimento do irmão em escândalos reforça percepção de arrogância e privilégios

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A prisão de Andrew Mountbatten-Windsor é um tiro certeiro no atual processo de modernização da monarquia britânica, liderado diretamente pelo rei Charles III.

Desde a sua coroação, em maio de 2023, o rei vem adotando uma série de medidas para tentar aproximar a família real da população e mostrar mais empatia com os seus súditos em tempos de alto custo de vida e austeridade no Reino Unido.

No entanto, as acusações de envolvimento do próprio irmão em escândalos sexuais e, agora, a sua prisão por suposta divulgação de informações confidenciais do governo britânico para o pedófilo condenado Jeffrey Epstein só reforçam a convicção de boa parte da população de que a família real continua sendo arrogante e cheia de privilégios inalcançáveis para as pessoas comuns.

O impacto do caso é ainda mais sensível porque contraria diretamente a estratégia de uma “monarquia enxuta” que Charles vem tentando consolidar, com um número menor de integrantes atuantes.

A prisão de Andrew fez a sociedade britânica lembrar de escândalos antigos e reforça a percepção de uma instituição presa a controvérsias, justamente no momento em que o rei busca projetar sobriedade, eficiência e maior responsabilidade pública.

Na prática, o episódio desgasta a narrativa de renovação institucional que o Palácio de Buckingham vem tentando construir.

Em vez de destacar iniciativas de modernização e aproximação com a sociedade, o debate público volta a ser dominado pela associação histórica entre a monarquia e privilégios, dificultando a tentativa de reposicionar a coroa como uma instituição alinhada às preocupações sociais do país.

Com o cenário de crise do custo de vida no Reino Unido, qualquer novo escândalo envolvendo integrantes da realeza também vai alimentar debates sobre o financiamento da monarquia e sua legitimidade simbólica perante a população.

Além disso, o caso compromete a estratégia de redução do núcleo ativo da família real, uma das principais marcas do reinado de Charles.

Mesmo afastado de funções oficiais, Andrew continua sendo irmão do monarca, que vive em um dos palacetes do rei e que até recentemente ocupava uma mansão na cidade histórica de Windsor sem pagar aluguel algum.

O desgaste ocorre em um momento em que a própria popularidade da monarquia enfrenta um declínio.

Pesquisa do National Centre for Social Research divulgada em setembro de 2025 indicou que apenas 51% dos britânicos dizem que é muito importante manter a monarquia. Em 1983, quando a pesquisa foi feita pela primeira vez, o número chegou a 83%.

A queda no apoio à monarquia é ainda maior, e mais preocupante, entre os mais jovens.

Nada menos do que 59% dos jovens entre 16 e 34 anos defendem que o chefe de Estado seja eleito, e não um monarca. O número sobe para 76% entre os maiores de 55 anos, que apoiam a continuidade da monarquia.

Outra pesquisa, do instituto YouGov, mostra que Andrew aparece como o ponto mais crítico da crise de imagem. Apenas 4% dos britânicos o apoiam.

Os mesmos levantamentos indicam ainda que o próprio Charles III não lidera os índices de aprovação entre os integrantes da realeza, ficando atrás de figuras mais populares, como o príncipe William e a princesa Kate.

Isso torna a agenda de modernização do rei ainda mais vulnerável a choques reputacionais. E pode levar a mais pedidos para que William assuma o trono o quanto antes.