Andressa Simão
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Andressa Simão

Jornalista formada pela PUC-Campinas, com dez anos de experiência na cobertura do agronegócio, especialmente em proteínas animais.

Newcastle em SC pode redirecionar demanda para Paraná e Rio Grande do Sul

Impacto tende a ficar concentrado no mercado catarinense, mas possível embargo da China a todo o Brasil é o principal risco para a avicultura

O caso de doença de Newcastle confirmado nesta segunda-feira (19) em uma granja comercial de perus em Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina, pode provocar restrições temporárias às exportações de carne de aves do estado.

Apesar da preocupação sanitária e comercial, a avaliação é que os efeitos sobre o mercado brasileiro podem ser mais moderados do que os registrados durante a crise de influenza aviária de alta patogenicidade, desde que o setor consiga reorganizar os embarques e equilibrar a oferta.

Nesse cenário, Paraná e Rio Grande do Sul podem desempenhar um papel importante ao absorver parte da demanda internacional eventualmente perdida por Santa Catarina.

O redirecionamento de cargas para outros estados e mercados tende a reduzir os efeitos de possíveis embargos sobre o fluxo nacional de exportações, evitando que a ocorrência sanitária se transforme em um problema de maior proporção para toda a cadeia produtiva.

A expectativa, segundo a avaliação de mercado, é de que os impactos comerciais mais imediatos se concentrem em Santa Catarina e tenham duração de aproximadamente 30 a 40 dias.

A capacidade de redirecionamento da produção é um dos principais fatores que podem limitar os prejuízos para o setor avícola brasileiro. O Paraná, maior exportador de carne de frango do país, tem peso relevante no abastecimento internacional e pode ampliar a participação em mercados que eventualmente reduzam ou suspendam as compras de Santa Catarina.

O Rio Grande do Sul também pode contribuir para absorver parte dessa demanda, desde que mantenha as condições sanitárias e as autorizações necessárias para atender aos destinos envolvidos. A redistribuição dos embarques entre os estados pode ajudar a preservar contratos e reduzir a concentração das perdas em determinadas regiões.

A estratégia, entretanto, não significa que toda a produção catarinense poderá ser substituída automaticamente. A transferência depende da capacidade produtiva e logística dos frigoríficos, das exigências sanitárias de cada comprador e da possibilidade de redirecionar os produtos para outros destinos.

Também é necessário considerar que alguns países podem estabelecer restrições para todo o território brasileiro, o que impediria a compensação imediata das vendas nesses mercados.

China

O ponto mais sensível para o setor é a China, já que o país pode adotar uma restrição de abrangência nacional, suspendendo as compras de carne de aves de todo o Brasil mesmo que o foco da doença esteja localizado em Santa Catarina.

Esse cenário amplia significativamente o risco comercial, porque a limitação deixa de afetar apenas os frigoríficos catarinenses e passa a envolver exportadores de outras regiões.

O alerta da consultoria Safras & Mercado aponta que a China apresenta risco muito alto de embargo nacional, considerando o precedente registrado em 2024, quando houve um foco de Newcastle em Anta Gorda, no Rio Grande do Sul.

Naquela ocasião, o país asiático retomou as compras do Brasil em 12 de agosto, mas manteve o estado gaúcho fora da reabertura. A recuperação da autorização para o Rio Grande do Sul só ocorreu em janeiro de 2026.

O histórico mostra que a retomada das exportações brasileiras não significa, necessariamente, a liberação simultânea de todos os estados. Por isso, mesmo que a China volte a comprar do Brasil após algumas semanas, Santa Catarina poderá enfrentar um período adicional de restrições, caso o país opte por manter a regionalização do embargo.

A duração e a abrangência de eventuais suspensões ainda dependem das decisões oficiais de cada mercado. Até o momento, o Ministério da Agricultura e Pecuária não divulgou o a lista definitiva de restrições comerciais relacionadas ao foco catarinense.

Efeitos nos preços

Caso as restrições comerciais se confirmem e permaneçam por um período prolongado, a dificuldade de escoar parte da produção poderá aumentar temporariamente a oferta de carne de aves no mercado interno catarinense. Esse movimento pode pressionar os preços no atacado regional, especialmente se os embarques não forem reorganizados com rapidez.

O tamanho desse efeito dependerá do volume de produtos que deixar de ser exportado, da velocidade de redirecionamento das cargas e da capacidade de absorção do mercado doméstico. Quanto maior a demora para encontrar destinos alternativos, maior a possibilidade de concentração de oferta no estado.

De acordo com a Safras & Mercado, o planejamento da produção também ganha importância. A recomendação é manter o alojamento de aves equilibrado com as perspectivas de demanda, evitando uma produção acima da capacidade de comercialização caso determinados mercados fechem temporariamente.

O ajuste é relevante porque os impactos sanitários e comerciais podem ocorrer em ritmos diferentes. Enquanto as medidas de controle avançam na região do foco, os países importadores podem revisar certificados e adotar restrições de acordo com seus próprios protocolos.