Próximos dois meses serão decisivos para avicultura retomar mercado na UE
Depois de visitas técnicas às unidades no Brasil, setor corre contra o tempo para atender europeus, enquanto busca novos mercados

A suspensão das importações de produtos de origem animal do Brasil pela União Europeia, motivada pelas regras do bloco para o uso de antimicrobianos, começou a valer nesta quinta-feira (3). Para a avicultura, porém, a disputa agora é contra o tempo. Novembro se tornou o principal prazo de referência para o setor tentar reverter a decisão e recuperar o acesso ao mercado europeu.
Em apurações com entidades ligadas à avicultura, o setor trabalha com a expectativa de que os resultados das auditorias realizadas recentemente no Brasil sejam avaliados pelas autoridades europeias em novembro. A depender das conclusões da missão, a expectativa é de que a suspensão possa ser revista ainda neste ano.
No Paraná, maior produtor e exportador de carne de frango do país, essa avaliação foi acompanhada de perto. Os primeiros relatos de produtores paranaenses que receberam os auditores europeus foram considerados positivos pelas entidades consultadas.
A percepção é de que as propriedades conseguiram demonstrar os procedimentos adotados para atender às exigências europeias relacionadas ao uso de antimicrobianos e à produção destinada ao mercado do bloco.
A missão da União Europeia esteve no Brasil no fim de agosto e passou por diferentes pontos da cadeia produtiva, incluindo frigoríficos, fábricas de ração e propriedades rurais. A região de Sidrolândia, em Mato Grosso do Sul, também esteve entre as áreas que receberam auditorias europeias. O objetivo da missão foi verificar na prática como o Brasil aplica as regras exigidas pelos europeus e quais controles estão sendo adotados ao longo da cadeia.
Em conversa com Luiz Eliezer Ferreira, técnico do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP, a expectativa é de que o Brasil consiga retornar à lista de fornecedores da União Europeia até o fim do ano.
Essa avaliação também é compartilhada pela ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), que, em entrevista à CNN Agro News, afirmou, por meio do presidente da entidade, Ricardo Santin, que a missão europeia realizada recentemente no Brasil teve como foco verificar se o Ministério da Agricultura está aplicando o modelo de fiscalização exigido pela União Europeia, especialmente em relação às regras para o uso de antimicrobianos.
A entidade afirma que o setor já seguia as regras europeias para o uso de antimicrobianos há mais de duas décadas. O que mudou, na avaliação do setor, foi o nível de comprovação e de fiscalização que passou a ser exigido pelas autoridades europeias.
Santin também destacou que o Ministério da Agricultura já completou um ciclo de produção de aves dentro desse novo modelo de fiscalização. Na prática, isso significa que produtos produzidos sob os procedimentos atualizados chegaram a ser exportados para a União Europeia antes mesmo da entrada em vigor da suspensão.
A expectativa da associação é que a auditoria realizada no Brasil sirva justamente para demonstrar às autoridades europeias que o novo sistema de fiscalização está funcionando e que as empresas brasileiras continuam cumprindo os requisitos exigidos pelo mercado.
O presidente da entidade avalia ainda que os europeus podem convocar uma reunião extraordinária para acelerar a análise dos resultados. Para o setor brasileiro, uma avaliação positiva e rápida seria fundamental para reduzir os impactos comerciais da suspensão e abrir caminho para a retomada das exportações.
Antecipação das compras
Os efeitos econômicos da suspensão também não devem aparecer de forma imediata, segundo a avaliação do presidente da ABPA. Houve uma antecipação das compras europeias antes da entrada da medida em vigor, o que pode funcionar como uma espécie de 'colchão' para os exportadores brasileiros nas primeiras semanas.
De acordo com a Secex (Secretaria de Comércio Exterior), entre janeiro e julho deste ano, as exportações brasileiras de carne de frango para a União Europeia cresceram 73%.
Segundo as entidades que representam o setor, a União Europeia não é o principal destino da produção brasileira, mas ocupa uma posição estratégica por ser um mercado de maior valor agregado e, principalmente, por funcionar como uma referência sanitária para outros compradores internacionais.
O receio do setor brasileiro é que uma permanência prolongada da suspensão comece a gerar questionamentos em outros mercados.
A lógica defendida pelo setor é que as exigências europeias acabam servindo como uma espécie de régua sanitária internacional. Países da Ásia e da África acompanham a forma como o Brasil atende aos protocolos europeus e podem usar essas informações como referência para estabelecer os próprios critérios de compra.
Redistribuição X Rentabilidade
A rentabilidade começa a entrar na conta já que a Europa paga mais por produtos de maior valor agregado, o que significa que redirecionar esse volume para outros mercados pode resolver parte do problema logístico, mas não necessariamente preservar a mesma margem para a indústria.
Segundo dados da Secex, entre janeiro e julho, o preço médio de exportação da carne de aves brasileira ficou em cerca de US$ 1.884 por tonelada. Se a suspensão se prolongar, portanto, o desafio será encontrar destinos capazes de absorver essa produção sem provocar uma deterioração relevante dos preços.
E, nesse aspecto, o Brasil parte de uma posição relativamente confortável para a carne de frango brasileira já está presente em mais de 150 países, o que amplia as possibilidades de redistribuição dos embarques.
Na avaliação da ABPA, mercados como México e Emirados Árabes Unidos podem absorver parte desse volume. Países da África e da América do Sul também aparecem entre as alternativas para um eventual redirecionamento da produção.
Mas existe outro fator pode entrar nesta equação, que é o mercado interno que também pode funcionar como uma válvula de escape para a indústria, ajudando a evitar que todo o volume que deixe de ser exportado seja direcionado de uma vez para o mercado doméstico.
Quanto mais tempo durar a suspensão, maior será a necessidade de encontrar novos compradores e, principalmente, de preservar mercados que ofereçam remuneração compatível com o produto brasileiro.



