Boris Feldman
Blog
Boris Feldman

Jornalista especializado em automóveis desde 1966, produtor e apresentador do programa Autopapo

Toyota ignorou o hype dos elétricos, mas parece ter vencido o jogo

Montadora japonesa ainda corre por fora na corrida pelos elétricos, porém não tem do que se queixar

Compartilhar matéria

Enquanto grandes empresas anunciavam bilhões de dólares de investimentos nos elétricos, Akio Toyoda, presidente da Toyota e neto de seu fundador, enfrentou um turbilhão de críticas ao decidir concentrar investimentos em outras alternativas energéticas.

O resultado? A Toyota se tornou pioneira do sistema híbrido ao lançar o Prius, em 1997. E novamente se destacou com o Mirai, que se movimenta com motores elétricos -- mas sem bateria, pois a corrente é gerada por uma célula a combustível (Fuel Cell) alimentada por hidrogênio. Seu elétrico só apareceu anos mais tarde.

Corrida pelo elétrico

E qual foi o primeiro carro elétrico produzido e vendido em série no mundo? Após várias tentativas fracassadas — incluindo uma da GM — quem realmente saiu na frente foi a Renault, com o Zoe, apresentado no Salão de Genebra de 2009. No ano seguinte foi a vez de sua então parceira, a Nissan, com o Leaf.

A corrida pelo elétrico agitou o setor. Em vários países foram surgindo iniciativas para se determinar uma data limite no emplacamento de carros com motores térmicos (a combustão). Os anos de 2030 e 2035 foram os marcos definidos para as barreiras legais aos automóveis a gasolina e incentivo aos elétricos.
Aproveitando a onda, a CEO global da General Motors, Mary Barra, anunciou que sua empresa não iria sequer investir nos híbridos e migrar diretamente para os carros a bateria. A Ford, embora menos radical, também apostou suas fichas nos elétricos.

Os chineses, no entanto, foram ainda mais espertos, desenvolveram seus carros a bateria à frente dos ocidentais e esbanjaram tecnologia na eletrificação veicular.

A euforia durou pouco e os ventos sopram hoje mais para os híbridos. Mary foi forçada a investir nesta praia e a engenharia da GM está debruçada sobre eles.

Adesão do mercado aos elétricos

A Ford não emplacou como planejava sua picape elétrica F-150 Lightening e incorporou versões híbridas no portifólio. A Stellantis volta a produzir agora seu famoso V-8 Hemi (riscado do mapa pelo ex-CEO Carlos Tavares) e lança uma RAM híbrida.

Na Europa, por exemplo, o ano de 2030 para limitar os carros à combustão já foi empurrado para frente. Não por falta de tecnologia, mas sim pela resistência do mercado em adotar os modelos 100% elétricos. Fábricas como Mercedes e Porsche estão ressuscitando projetos de novos motores a gasolina, sinalizando uma reavaliação das metas de eletrificação.

As estatísticas desenham esse caminho: segundo o JD Power, o mercado dos Estados Unidos absorveu 1,2 milhão de elétricos em 2024, uma fatia de 9,2% com crescimento de 0,8% em relação a 2023. Enquanto isso, os híbridos representaram 11% das vendas, tendo crescido 2,4% em relação ao ano anterior.

Os elétricos nos Estados Unidos ainda custam – em média – cerca de U$ 5 mil mais (cerca de R$ 27.316) que os carros a combustão. E desvalorizam quase o dobro no mercado de usados.

Ri melhor quem ri por último?

A Toyota assistiu de camarote à enxurrada de elétricos, continuou investindo nos híbridos e logo percebeu a superioridade dos chineses nesta tecnologia. Seu primeiro elétrico? O ainda conceito bZ4X, lançado em 2021. Um SUV com mais de 500 km de autonomia, garantia de até 10 anos e que inaugurou a linha bZ -- que significa “beyond Zero”, numa referência às emissões “zero”.

Mas sua grande aposta é no segundo modelo bZ, o compacto 3X desenvolvido em parceria com a chinesa GAC e comercializado inicialmente apenas na China. Um SUV com preços mais que competitivos e que aplica todo o aperfeiçoamento dos elétricos conquistado pelos chineses até agora.

A estratégia de Toyoda é iniciar apenas em 2027 os lançamentos globais de elétricos começando por sua linha de luxo, a Lexus. Com uma nova plataforma flexível e modular projetada para reduzir custos, acelerar tempo e eficiência na linha de montagem.

Enquanto a concorrência investia bilhões nos carros à bateria, sua marca continuou desenvolvendo os híbridos. Hoje, todos percebem ser a melhor opção do mercado. Pelo menos até que os elétricos sejam mais viáveis em termos de custo, alcance, recarga e valor de revenda.

Por isso, a empresa de Toyoda avança lentamente com os carros elétricos, que ainda enfrentam resistência no Japão. Enquanto isso, novas fábricas estão sendo erguidas na China e na Europa, com lançamentos mais consistentes previstos apenas a partir de 2027.

Pelo andar da carruagem, quando o elétrico emplacar de fato, a Toyota já terá um portfólio com uma completa linha de eletrificados. E Akio Toyoda, sorridente em um ofurô familiar, contando para seus herdeiros e sucessores como se sair vitorioso neste complexo jogo contra os mais poderosos players do mundo.