Rota Bioceânica projeta saída do Brasil para o Pacífico
Equipe da CNN Brasil percorreu toda a extensão, saindo de Campo Grande (MS), em uma viagem de mais de 3 mil quilômetros
A natureza se impõe entre o Brasil e o Pacífico. São quilômetros de rios, mais extensa cadeia de montanhas do mundo e um deserto conhecido pela aridez extrema.
Esses obstáculos não vão impedir que, agora, o Brasil chegue ao maior e mais profundo oceano da Terra por meio de uma estrada: o Corredor Bioceânico do Trópico de Capricórnio. Ou Rota Bioceânica.
A CNN Brasil estreia nesta segunda-feira (15) a série Rota Bioceânica: Brasil rumo ao Pacífico. Em cinco reportagens especiais que serão exibidas até sexta-feira (19) no CNN Prime Time, mostraremos, em conjunto com o cinegrafista Djalma Sena, o percurso de mais de 3mil quilômetros da estrada que ligará o Oceano Atlântico ao Oceano Pacífico.
A CNN percorreu toda a sua extensão, saindo de Campo Grande (MS), saindo da antiga estação de trem da capital, por onde, a partir do começo do século 20, Mato Grosso do Sul se desenvolveu.
Agora o estado quer aproveitar o fato de ter uma localização estratégica e central, no país e na América do Sul, para ser uma espécie de hub logístico, a porta de entrada e de saída de um corredor de desenvolvimento rodoviário, realizando um sonho antigo do Brasil: o acesso ao oceano Pacífico - e, consequentemente, encurtando o caminho dos nossos produtos ao mercado asiático.
O caminho, que atravessa o norte do Paraguai e da Argentina, e chega aos portos ao norte do Chile, se tornou o mais viável das cinco rotas nas quais o Brasil investe rumo ao Pacífico.
"No caso específico da Rota Bioceânica de Capricórnio, a gente tem declarações de diferentes presidentes, de diferentes colorações ideológicas, dos diferentes países envolvidos. Então, tem uma institucionalidade envolvendo Brasil, Paraguai, Argentina e Chile", diz à CNN o secretário de Articulação do Ministério do Planejamento, João Villaverde.
A nova realidade econômica do Brasil acelerou essa saída.
O agronegócio puxa o desenvolvimento do Centro-Oeste do Brasil em direção ao mercado asiático, especialmente o da China, nosso principal parceiro comercial. No ano passado, o gigante asiático respondeu por 41% do superávit comercial do Brasil.
O Mato Grosso do Sul é um dos maiores produtores de soja do país. E a commodity teve peso importante nesse resultado: a soja, o petróleo bruto e o minério de ferro representaram 75% do total exportado pelos produtores brasileiros aos chineses.
O Brasil pretende fortalecer essa parceria diante do tarifaço americano.
"Nos últimos 25 anos, a Ásia-Pacífico se tornou o centro dinâmico do comércio mundial. É um reequilíbrio, né? Mas, para o Brasil, desde a colônia até os nossos 200 anos de país independente — até 2000 mais ou menos — o centro do nosso comércio exterior estava no Atlântico Norte", afirma Pedro Barros, pesquisador do Ipea.
"Então, a nossa preocupação era estar conectado com os nossos portos e, dos nossos portos, ao Atlântico Norte. Essa era a nossa história logística. Mas, nos últimos 25 anos, o mercado mundial se reequilibrou em direção à Ásia-Pacífico e as exportações do Brasil são predominantemente para aquela região".
Para a ministra do Planejamento, Simone Tebet, "a Rota é extremamente estratégica tendo em vista a competitividade do Brasil".
"A gente não pode achar que o Brasil é o celeiro do mundo e que a gente está deitado eternamente em berço esplêndido. Estamos tendo uma expansão agrícola na África, que é muito mais próxima da Ásia. Estamos tendo a tecnologia e a inteligência artificial avançando no mundo inteiro. Então, temos também que correr atrás do prejuízo e continuar sendo o responsável por diminuir a insegurança alimentar, não só no Brasil, na América do Sul, mas também no mundo", complementa à CNN.
Esse cenário levou agentes políticos e econômicos regionais a pressionar por uma saída mais rápida e mais barata para a Asia dos produtos brasileiros.
As estimativas oficiais apontam que a Rota diminui em 17 dias o tempo para as mercadorias chegarem à Ásia, e em 30% o frete em relação ao que se gasta para se escoar os produtos pelo oceano Atlântico via Porto de Santos.
Cláudio Cavol, presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do Mato Grosso do Sul, organizou comitivas de empresários que se dedicaram a encontrar o melhor caminho para o Pacífico.
"Em 2013, nós vivíamos praticamente um apagão logístico no Brasil. Tínhamos portos entupidos de caminhões em Paranaguá, Santos, Itajaí. Isso se tornava totalmente inviável, inclusive o agronegócio no Brasil, se continuássemos com esse apagão logístico em termos de portos. Tínhamos mais de cem navios ao largo do Porto de Paranaguá esperando para poder encostar e carregar nossa soja. Foi aí que então saímos atrás de uma nova saída, e essa saída se mostrou viável pelo pacífico, diz.
O caminho mais rápido seria pela Bolívia, mas a legislação do país permite que somente bolivianos dirijam seus caminhões.
O movimento brasileiro buscou aliados no Paraguai e nos estados subnacionais vizinhos pelos quais o novo caminho passaria. Todos com uma característica em comum: estão distantes do centro político e econômico de seus países e sentem que as grandes capitais não veem uma nova rota de desenvolvimento como uma aliada, mas, sim, como uma ameaça.
A pressão de baixo para cima deu certo e uma declaração presidencial de 2015 oficializou o Corredor Bioceânico como política de Estado. Fundos internacionais viabilizaram a execução de obras. E os estados também se organizaram em fóruns regionais que frequentemente se reúnem para debater a integração e governança da Rota.
"Assim como acontece na Europa, nós queremos fazer um tratado da Rota. Ele seria um tratado supranacional, com uma legislação própria, permitindo, efetivamente, que a gente dê o fluxo necessário tanto de pessoas como de mercadorias", diz Jaime Verruck, secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação do Mato Grosso do Sul.
"Esse é o nosso grande desafio: como constituir no âmbito dos quatro países um tratado da Rota nos moldes da comunidade econômica europeia para que a gente possa ter esse fluxo. Seria um projeto inédito, isso não existe no âmbito da América do Sul, mas é um caminho para que a gente gere desenvolvimento e a competitividade da Rota Bioceânica".



