Análise: Lulismo e bolsonarismo viram alvo comum em ato de Renan Santos
Partido insistiu em perfil antissistema em ato preenchido por um público majoritariamente jovem

O Missão, do candidato à Presidência Renan Santos, foi institucionalizado em novembro de 2025 pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) por lideranças egressas do Movimento Brasil Livre (MBL), responsável pelas manifestações que levaram ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.
Tem, portanto, no seu DNA o antipetismo. Mas o ato do partido na tarde deste sábado (1) comprovou que o grupo coloca hoje no mesmo nível o lulismo, o bolsonarismo e o Centrão.
“Ambos (Lula e Bolsonaro) têm que ir para a lata de lixo da história juntos”, sintetizou o próprio candidato em seu discurso de mais de uma hora, iniciado às 17h36, no qual também proferiu xingamentos a ambos. Criticou Lula por prometer "dar gás para se eleger" e Flávio, que "resolveu dar celular.”
Até a entrada de Renan no palco, lideranças do partido se dividiram entre apresentar as propostas do “Livro Amarelo”, o programa de governo, e apresentar seus candidatos a governador e a vice-presidente.
Nesses momentos, o bolsonarismo chegou a predominar como alvo, mais até do que o PT, Lula e o Centrão.
“Jair Bolsonaro fechou o mesmo acordo de sempre com o Centrão”, disse o candidato a vice, o coronel da Polícia Militar do Rio Grande do Sul Aroldo Medeiros, apresentado como alguém que votou em Jair Bolsonaro em 2018, mas se frustrou depois. Com uma vassoura na mão, defendeu “limpar o Brasil”.
Na sequência, os candidatos a governador pelo Missão também miraram o movimento do ex-presidente. França (PR) disse que “muitos dos que eles [bolsonaristas] ajudaram a eleger viraram traidores”. Marcelo Brigadeiro (SC) atacou Jair Renan Bolsonaro, vereador em Balneário Camboriú.
O amplo salão de eventos na Mooca, zona Leste de São Paulo, contou com um público em sua maioria jovem, faixa do eleitorado em que Renan Santos performa melhor.
A plateia por diversas vezes entoava o nome do partido e do candidato e vaiava adversários como Lula (PT) e os Bolsonaro. Até mesmo o senador Sergio Moro (PL - PR), que mandou prender Lula e foi ministro de Bolsonaro, foi xingado.
Apesar da estratégia política que visa desbancar os candidatos da direita para chegar ao segundo turno contra Lula, o “Livro Amarelo”, assim batizado em uma alusão irônica ao Livro Vermelho, do líder comunista chinês Mao Tsé-Tung, traz um compilado de propostas liberais.
Com quase 500 páginas, defende reformas econômicas profundas, apresentadas como um “remédio amargo” necessário; uma Lei de Responsabilidade Gerencial para que gestores sejam premiados por metas de desempenho; um “choque de lei e ordem” no combate à criminalidade; e a criação de Zonas Econômicas Exclusivas para desenvolver regiões carentes.
O perfil antissistema e anti-establishment só não foi exercido em sua completude porque, em nenhum momento do ato, houve críticas ao STF (Supremo Tribunal Federal).
A Corte é alvo preferencial do bolsonarismo, e até mesmo o lulismo debate uma reforma do Judiciário. Só faltou isso para ser contra tudo e contra todos de fato.



