Três fatores levaram Ratinho Jr. a desistir da disputa ao Planalto
Pressão familiar, cenário adverso no Paraná e risco político pesaram na decisão
A decisão do governador do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), de desistir da disputa ao Palácio do Planalto foi influenciada por três fatores principais, segundo interlocutores.
O primeiro deles foi de ordem pessoal. Ratinho enfrentou pressão dos filhos — de 22, 17 e 13 anos — contrários à candidatura. O governador atribuiu peso decisivo à posição da família, acima até da avaliação da esposa e do pai, o apresentador Ratinho.
Entre os motivos, está a preocupação com segurança, intensificada após episódios recentes de violência política, como os atentados contra Jair Bolsonaro, em 2018, Donald Trump, em 2024, e o pré-candidato colombiano Miguel Uribe, em 2025.
O segundo fator envolve o cenário político no Paraná. O senador Sergio Moro lidera as pesquisas para o governo estadual e articulou filiação ao PL, com apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Ao mesmo tempo, o nome apoiado por Ratinho, o secretário Guto Silva (PSD), apresenta desempenho fraco nas sondagens.
Com a saída da disputa nacional, Ratinho busca conter esse avanço. Aliados afirmam que o objetivo agora é impedir a candidatura de Moro pelo PL e construir uma coalizão que fortaleça seu grupo político no Estado.
Para isso, conta com o respaldo do presidente do partido, Valdemar da Costa Neto, que já demonstrou resistência à filiação de Moro no Paraná.
O terceiro motivo está diretamente ligado ao segundo: o risco político de uma eventual vitória de Moro. Integrantes do entorno do governador avaliam que isso poderia abrir espaço para uma revisão de decisões tomadas ao longo dos oito anos de gestão.
A preocupação aumentou após o caso Master, que levantou questionamentos sobre a venda do braço de Telecom da Companhia Paranaense de Energia (Copel), realizada em 2020.
A empresa foi adquirida por um fundo que tem como um dos acionistas o empresário Nelson Tanure, alvo de investigação da Polícia Federal em janeiro, sob suspeita de ligação com o grupo.
O episódio já vem sendo explorado por adversários políticos no Estado, especialmente pelo PT, como forma de desgaste da atual gestão.
Além disso, pesou o risco eleitoral. Com menos de 5% das intenções de voto para a Presidência, segundo pesquisas internas, Ratinho poderia perder controle sobre sua base política ao se afastar do governo, abrindo espaço para uma migração de aliados em direção à candidatura de Moro.
Ao recuar da disputa nacional, o governador tenta preservar sua influência no Estado e reorganizar seu grupo político diante do novo cenário.
Nota da Redação
A CNN esclarece que na primeira versão da nota, já corrigida, escreveu que a Copel foi adquirida por fundo que tem cono sócio o empresário Nelson Tanure, investigado no Caso Master. Na verdade, o fundo adquiriu a Copel Telecom.
A seguir, a íntegra da manifestação da Copel encaminhada a CNN sobre o assunto:
“No intuito de se elucidar os fatos, é necessário se fazer uma distinção clara entre (A) operação de venda da COPEL Telecom S.A. (atual Ligga Telecom), subsidiária de serviços de telefonia e internet da COPEL, para o fundo Bordeaux Participações em 3 de agosto de 2021; e (B) o processo de oferta subsequente de ações (i.e. follow-on) que culminou na transformação da COPEL de uma sociedade de economia mista controlada pelo Estado do Paraná em uma corporação de capital pulverizado sem controlador definido, concluída em 11 de agosto de 2023.
A. VENDA DA SUBSIDIÁRIA COPEL TELECOM S.A. (ATUAL LIGGA TELECOM) PARA O FUNDO BORDEAUX PARTICIPAÇÕES AS (2021)
1. Em 2019, a COPEL deu início ao processo de alienação da sua subsidiária COPEL Telecom S.A. (atual Ligga Telecom) como parte de sua estratégia de focar exclusivamente no mercado de energia elétrica.
2. A estruturação do processo de desinvestimento da COPEL Telecom S.A. se iniciou em julho de 2019, com a contratação do banco de investimentos Rothschild e do escritório de Cescon Barrieu Advogados.
3. Ao longo do ano de 2020, ocorreram todos os trâmites de aprovações regulatórias (ANEEL, ANATEL e CADE), governamentais (Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE/PR) e societárias.
4. A escolha do novo comprador ocorreu em processo de leilão público na B3 em 9 de novembro de 2020, no qual o fundo Bordeaux Participações AS se sagrou campeão após uma dezena de lances acirrados contra outros competidores – se alcançando o valor de venda de R$ 2,4 bilhões (um ágio de 70,94%). Tal competição pública, evidenciou a idoneidade do processo e garantiu a melhor oferta para a vendedora COPEL – em linha com os deveres fiduciários de seus administradores.
5. Como de praxe, a transferência de 100% das ações da COPEL Telecom S.A. da COPEL para a compradora Bordeaux Investimentos ocorreu após o preenchimento de condições precedentes em 3 de agosto de 2021. Nesse mesmo dia, a COPEL recebeu da compradora o valor da compra (R$ 2,4 bilhões) via pagamento pelas contas da compradora oriundas do Banco BTG Pactual e Banco do Brasil S.A.
6. No momento da transferência do controle da COPEL Telecom S.A., o fundo Bordeaux Investimentos AS tinha como presidente do seu grupo o Sr. Nelson Tanure, a administradora do fundo era a Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e a gestora era a MAM Asset Management.
7. Não houve nenhuma tratativa da COPEL e COPEL Telecom S.A. (atual Ligga Telecom) com o Banco Master no processo de venda da COPEL Telecom S.A.
8. Em 20 de fevereiro de 2026, a Ligga Telecom S.A. publicou fato relevante no qual informou sobre a assinatura de um contrato que aliena o controle da companhia para a Brasil TecPar Serviços de Telecomunicações S.A.
B. TRANSFORMAÇÃO DA COPEL EM TRUE CORPORATION (2023)
9. O processo de transformação da COPEL em corporação sem controlador-definido seguiu todos os trâmites legais, legislativos, administrativos e societários. Teve sua origem no Projeto de Lei Estadual n.º 493/2022, devidamente aprovado pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (ALEP) em 24 de novembro de 2022 – culminando na promulgação da Lei Estadual nº 21.272/2022.
10. O processo transcorreu de forma técnica, com audiência pública, acompanhamento e validação pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE/PR) e pelo Tribunal de Contas da União em 2023, sendo concluído em 11 de agosto de 2023 com a realização da oferta pública de ações na B3 – momento em que a COPEL deixou de ter um acionista controlador.
11. O Estado do Paraná e a COPEL estruturaram o processo amparados por assessores externos de renome nacional e internacional, como o (i) Banco BTG Pactual S/A, líder da assessoria financeira1; e (ii) Stocche Forbes Sociedade de Advogados. A oferta foi realizada no Brasil sob coordenação, na qualidade de instituições intermediárias, do Banco BTG Pactual S.A., do Banco Itaú BBA S.A. (“Agente Estabilizador”), do Banco Bradesco BBI S.A., do Banco Morgan Stanley S.A. e do UBS Brasil Corretora de Câmbio, Títulos e Valores Mobiliários S.A. Simultaneamente, no âmbito da oferta, foram realizados esforços de colocação das ações no exterior pelo BTG Pactual US Capital, LLC, pelo Itau BBA USA Securities, Inc., pelo Bradesco Securities, Inc., pelo Morgan Stanley & Co. LLC e pelo UBS Securities LLC.
12. Destaca-se que a referida transformação da COPEL em uma true-corporation (companhia de capital disperso e sem acionista controlador) permitiu a renovação das concessões das suas três maiores usinas hidrelétricas (Foz do Areia, Segredo e Caxias) em 2024, que totalizam 4.176,0 MW de capacidade instalada.
13. Atualmente, a COPEL é uma empresa sem controlador definido, uma corporação, listada na B3 na categoria Novo Mercado, com os mais elevados padrões de governança corporativa.
14. Portanto, é inverídica a informação de que a transformação da COPEL em corporação teve qualquer ligação com o Sr. Nelson Tanure ou com o Banco Master.”


