Caio Junqueira
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Caio Junqueira

Formado em Direito e Jornalismo, cobre política há 23 anos, 10 deles em Brasília cobrindo os Três Poderes. Passou por Folha, Valor, Estadão e Crusoé

Corina pediu reunião a Lula e criticou presidente em 2024; ouça áudios

Conteúdo foi gravado em março do ano passado e enviado ao advogado de direitos humanos Fernando Tibúrcio

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Em dois áudios de março 2024, obtidos pela CNN, a prêmio Nobel da Paz María Corina Machado pediu diálogo com Lula e criticou o presidente.

As gravações foram passadas por ela a um dos seus principais aliados no Brasil, o advogado de direitos humanos Fernando Tibúrcio.

No primeiro áudio, ela se dirige ao presidente Lula e pede que ele a receba ou designe alguém para isso. A ideia dela era transmitir confiança ao governo brasileiro de que a oposição venezuelana, então favorita na eleição, garantiria uma transição pacífica no país.

Ela também coloca estar aberta a se reunir com Nicolás Maduro. Tiburcio disse à CNN ter repassado o áudio a quatro auxiliares diretos do presidente.

Ouça o áudio de Corina a Lula:

Veja o que Corina diz na mensagem a Lula:

“Presidente Lula, sou María Corina Machado e lhe envio esta mensagem da Venezuela.

Eu entendo todas as dificuldades que estamos vivendo e todas as dúvidas que existem sobre o que está ocorrendo na Venezuela, mas quero que o senhor saiba, em primeira mão, pela minha voz, que nós estamos comprometidos com o fortalecimento da democracia e a reconstrução das instituições da Venezuela.

Estou comprometida com um processo eleitoral livre, que permita aos venezuelanos avançarem por uma rota pacífica para resolver o enorme conflito que hoje enfrentamos na Venezuela, e assegurar que haja garantias para todos os atores de que uma transição ordenada, estável e pacífica poderá resultar em benefício para todos.

Entendo que é um processo muito complexo para o governo, e estou absolutamente disposta a conversar com o governo e com Nicolás Maduro, a fim de encontrar saídas que sejam favoráveis a todas as partes e que permitam resolver pacificamente o enorme problema que existe na Venezuela.

Creio que você pode desempenhar um papel fundamental para que isso possa avançar pacificamente e seja resolvido de forma favorável para todos os envolvidos.

Ficaria muito honrada em poder conversar com o senhor, ou com a pessoa que o senhor designe, para transmitir confiança a todos os setores e assegurarmos que possamos realizar eleições livres na Venezuela, que permitam, de uma maneira pacífica, resolver esse conflito.

Estou à disposição, se você quiser, podemos conversar com qualquer pessoa que o senhor designe e dar garantias a todas as partes.

Acredito que o Brasil tem um papel fundamental diante da América Latina, do mundo, e agora, diante da história.”

Áudio de Corina para Tibúrcio

O outro áudio foi encaminhado por María Corina a Fernando Tibúrcio em uma conversa pessoal entre ambos.

Ela detalha a prisão, suspeita de tortura de apoiadores e conta como o regime de Maduro estava impedindo que ela e seus aliados se candidatassem.

Corina ainda diz não entender o silêncio do governo Lula pela situação na Venezuela, em especial pelo fato do presidente também ter passado dificuldades com a Justiça antes de voltar ao poder.

Ouça o áudio de Corina a Tibúrcio:

Leia a íntegra da mensagem de Corina a Tibúrcio:

“Olá, Fernando, boa noite. Como está? Desculpa que não havia te respondido antes, mas deve imaginar o quão difíceis têm sido esses dias.

Todos os meus principais colaboradores têm ordem de prisão. Você os conhece — são gente boa, venezuelanos que só estão trabalhando por eleições limpas, gente de bem com seus próprios recursos, visto o que eles têm feito, eu não sei onde estão a essa hora o meu coordenador de organização nem nossa coordenadora de operação política.

Além disso, os dois têm problemas de saúde e não sei onde estão. Não permitiram sequer que os advogados os vejam. A família também não sabe. É uma coisa terrível. Forçaram um dos coordenadores presos a dar um testemunho falso. Imagino que o tenham torturado. Eu não sei... É algo terrível.

E o regime, o que quer é me anular, me neutralizar, me calar, fazer com que eu não possa nem competir, nem sequer falar, Fernando. Para mim, é incompreensível que o governo do Brasil, diante de uma situação tão extrema como essa, sequer emita uma posição oficial. E todos sabemos que o Brasil, sim, tem influência importante sobre Maduro.

Eu te peço que me ajude a pensar no que possamos fazer. E, claro, estou disposta também a conceder uma entrevista — mas temos pouco tempo, porque o período de inscrição de candidatos é até segunda-feira (25), segunda que vem.

Depois temos dois dias, terça e quarta, 26 e 27, em que eles vão decidir se aceitam ou não aceitam a pessoa que vou propor inscrever como candidato enquanto seguimos avançando no processo. Porque há chance de substituir o candidato até dez dias antes da eleição.

A eleição é 28 de julho, portanto até 18 de julho há chance de que, se for habilitado, possa se inscrever.

Mas o regime já disse que não quer aceitar nenhuma pessoa que tenha meu apoio. Imagine isso! É me enterrar, é me destruir completamente. É algo que nunca aconteceu nesse hemisfério, exceto obviamente na Nicarágua.

Não posso crer que o governo Lula, que passou pelo que passou, se mantenha calado, silente, diante dessa aberração.

Então, eu te peço que me ajude a pensar o que podemos fazer? Tenho tratado de procurar mecanismos de comunicação com o governo do Brasil, mas não foi possível. Se tens alguma ideia, por favor, me envie. Essa entrevista, podemos fazer, mas não sei se será muito tarde se fizermos na semana que vem.

Um abraço grande, Fernando, e obrigado pela sua confiança.”

O que diz o governo brasileiro

O Palácio do Planalto e o Itamaraty informaram não haver registros oficiais do áudio de María Corina a Lula.

A diplomacia brasileira entende que no momento em que os áudios foram encaminhados, em março de 2024, de fato havia um distanciamento entre Corina e o governo brasileiro, mas que a partir de maio de 2024 houve uma aproximação de diplomatas brasileiros com assessores de María Corina e que as demandas apontadas por ela foram atendidas.

Isso aconteceu, em especial, após o Brasil assumir a gestão da embaixada da Argentina em Caracas, onde parte do grupo de Corina se refugiou.

O presidente Lula nunca recebeu María Corina, mas houve contato dela com o alto escalão do Itamaraty.

Procurado, Fernando Tibúrcio mandou a seguinte nota:

“María Corina tinha a exata noção do papel que o Brasil, com sua influência regional, poderia desempenhar nas eleições venezuelanas. Por isso me pediu que fizesse chegar ao presidente Lula uma mensagem gravada, onde ela buscava a abertura de um diálogo com o governo brasileiro. Uma mensagem de paz e conciliação.

Enviei a mensagem de María Corina Machado para os celulares de Marcola, o chefe de gabinete de Lula, de Celso Amorim e de Mauro Vieira, que dispensam apresentações. Nenhum deles me respondeu.

Soube que a senadora Tereza Cristina tentou encaminhar à Presidência da República, sem sucesso, cópia das atas das seções eleitorais, que provavam a grotesca fraude nas eleições presidenciais do ano passado na Venezuela.

O governo brasileiro adotou, para consumo interno do nosso meio político, uma postura de neutralidade ativa, exigindo a divulgação das atas. Mas nunca quis de fato apertar o torniquete.

A meu ver, a neutralidade, seja ela passiva ou ativa, por sí só já atenderia os interesses de Maduro. E foi isso que aconteceu. O tempo foi passando e ficou por isso mesmo.

O reconhecimento da Fundação Nobel à incansável luta de María Corina vai colocar as coisas no seu devido lugar.”