Fornecedor confiável da Europa, Noruega faz gestão impecável do petróleo
País é hoje um pilar fundamental para a segurança energética regional, atendendo mais de 30% da demanda da União Europeia e do Reino Unido

Desde 2022, com o início da guerra na Ucrânia e as sanções impostas ao petróleo e ao gás russo, a Europa passou a depender fortemente de um fornecedor discreto, mas totalmente confiável: a Noruega.
O país é hoje um pilar fundamental para a segurança energética regional, atendendo mais de 30% da demanda da União Europeia e do Reino Unido.
Tem feito esforços no sentido de intensificar a produção (hoje em torno de 2,1 milhões de barris por dia) e ajustar os cronogramas de manutenção visando ampliar suas exportações, que já aumentaram 10% para aqueles parceiros.
Mas a guerra no Irã preocupa Bruxelas. É que desta vez a Noruega não tem mais capacidade ociosa para preencher e assim neutralizar, ainda que parcialmente, o novo choque no fornecimento resultante do conflito no Oriente Médio. Atualmente mais de 90% de sua produção de petróleo e gás já segue para o continente.
Aumentar ainda mais a oferta significaria a busca de novas áreas para exploração e maiores investimentos. O fato é que Oslo trabalha para frear o declínio da produção, previsto para começar após 2030 em decorrência da diminuição do potencial das áreas de extração atuais.
Em paralelo, a Noruega resiste aos apelos de Bruxelas para promover uma moratória na exploração de petróleo e gás no Ártico por razões ambientais, mesmo sendo o país um dos mais comprometidos com as fontes alternativas de energia e a redução de emissão de CO2.
Segundo especialistas, a produção naquela área já tem um peso relevante no esforço de substituição do fornecimento da Rússia. Portanto, uma redução ou interrupção poderia reduzir a segurança do abastecimento europeu.
Possuir e explorar grandes reservas de petróleo não garante, por si só, benefícios para toda uma sociedade. Iraque, Líbia e mesmo a Venezuela são exemplos disso. Ou seja, grandes produtores que não lograram proporcionar a diminuição da desigualdade e melhores condições para suas populações.
Foi diferente com a Noruega, que chegou a ser um dos países mais pobres da Europa.
Após descobrir petróleo no início dos anos 1970, sua transformação foi radical. Os diferentes governos que se seguiram no poder desde aquela época souberam tirar vantagem do petróleo não apenas para gerenciar responsavelmente os recursos por ele proporcionados.
Apostas estratégicas foram feitas na modernização e na infraestrutura, pavimentando assim o caminho para que futuras gerações pudessem continuar a usufruir de uma sociedade onde estão presentes oportunidades, equilíbrio e bem-estar.
Hoje os habitantes do país escandinavo ostentam um dos mais altos níveis de vida do planeta, graças a uma bem-sucedida lição de casa. O petróleo representa cerca de 42% da receita de exportação e constitui pilar fundamental da economia nacional.
Tal círculo virtuoso foi definitivamente materializado por meio da criação em 1990 do Fundo Soberano da Noruega (batizado Government Pension Fund Global), atualmente o maior do mundo.
Administrado pelo NBIM (Norges Bank Investment Management), que é um braço do Norges Bank, o banco central do país, o fundo é, portanto, 100% controlado pelo Estado.
Ele obedece a rígidas premissas estabelecidas na própria Constituição. Assim desenhado o mecanismo está a salvo de qualquer eventual intenção de mudança de regras ou ímpetos de gasto descontrolado de recursos. Apenas os lucros de seus investimentos podem ser usados, até certo ponto, pelo governo de plantão.
Sua trajetória de sucesso pode ser comprovada pelos números: os ativos atingiram US$ 2,2 trilhões (valor equivalente ao Produto Interno Bruto do Brasil).
Isso é resultado não apenas de dinheiro em caixa, mas também de 11 mil investimentos diferentes: trata-se, nesse caso, principalmente de participações acionárias (em geral entre 1% e 4%) em exatas 8.374 empresas de diversos setores, em 68 países.
Algumas das empresas onde o fundo possui participações acionárias são o sonho de qualquer investidor:
- Nvidia;
- Microsoft;
- Apple;
- Amazon;
- Meta;
- Netflix;
- JPMorgan;
- Citigroup;
- SAP;
- Uber;
- Alphabet;
- Tesla;
- Coca-Cola;
- Walmart;
- Eli Lilly.
Ou seja, o fundo evita colocar os ovos numa mesma cesta e diversifica seus recursos com base em uma estratégia segura. O portfólio é composto por ações (cerca de 70% dos recursos totais aportados) e renda fixa (26%), ficando o restante alocado em infraestrutura de energia renovável e imóveis.
Graças a essa diversificação escolhida a dedo o fundo soberano registrou em 2025 um lucro de US$ 247 bilhões, invejável retorno de 15,1% sobre seus investimentos.
Os ganhos foram fortemente impulsionados por participações em empresas dos setores de telecomunicações, finanças e também ao boom do mercado de inteligência artificial.
Os recursos permitem ainda à Noruega um alto nível de independência para posicionar-se de forma clara em relação a temas sensíveis do cenário internacional que outras nações procuram evitar.
No segundo semestre de 2024, por exemplo, Oslo decidiu restringir as atividades do seu fundo soberano em Israel devido aos bombardeios do país na faixa de Gaza.



