Ciro Dias Reis
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Ciro Dias Reis

Especialista em comunicação e temas internacionais. Fundador e CEO da Imagem Corporativa, é board member da International Communications Consultancy Organization e membro do Copenhagen Institute for Future Studies. Foi também global chairman da rede global PROI Worldwide

Rearmamento da Europa ganha velocidade e tem apoio popular

ReArm Europe prevê investimentos de mais de 5 trilhões de reais em novos sistemas e equipamentos militares

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Pela ótica deste lado do Atlântico o tema do rearmamento na Europa soa relevante, sem dúvida. Mas essa percepção está longe da real importância que esse movimento ganhou junto a população do continente, bem como no âmbito dos três principais pilares institucionais e decisórios da União Europeia, representados pela Comissão, pelo Conselho e pelo Parlamento do bloco.  

A questão está colocada de forma clara há pouco mais de um ano, com nome e sobrenome: ReArm Europe Plan/Readness 2030.  Mais do que um conceito ou estudo, trata-se de um processo concreto, já em andamento, e que deixa clara sua razão de ser, sem meias palavras: o temor de um avanço da Rússia sobre o continente como passo seguinte à invasão da Ucrânia em 2022. 

ReArm Europe prevê investimentos de até 800 bilhões de euros (mais de 5 trilhões de reais) em novos sistemas e equipamentos militares, recursos a serem viabilizados em grande medida graças à flexibilização das rígidas regras fiscais impostas pela UE aos seus 27 países membros. 

O plano é abrangente e segundo a Comissão Europeia visa “aumentar a capacidade de dissuasão e defesa em todos os domínios: terra, ar, mar, ciberespaço e espaço.”

“Por que precisamos agir hoje”, diz o título de um documento da mesma Comissão, comandada por Ursula van der Leyen. O texto afirma: “A preparação é fundamental – assumir a responsabilidade pela nossa própria segurança significa investir em uma defesa robusta; proteger nosso povo; garantir que tenhamos os recursos para agir quando necessário”.

O engajamento das lideranças políticas regionais é consequência direta da decisão de Donald Trump de não mais investir na parceria dos Estados Unidos com a Europa na defesa do continente. Essa foi uma dobradinha que funcionou bem desde o final da Segunda Guerra e que teve na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) seu principal veículo. 

Em meados do ano passado o primeiro-ministro britânico Keir Starmer e o presidente francês Emmanuel Macron já haviam anunciado um entendimento para coordenar uma estratégia nuclear independente (França e Grã-Bretanha são os únicos países da Europa que possuem armas nucelares). 

“A partir de hoje, nossos adversários saberão que qualquer ameaça extrema a este continente provocará uma resposta conjunta de nossas duas nações. Não há demonstração maior da importância dessa relação”, afirmou Starmer na ocasião. 

Ao mesmo tempo, vários países já decidiram realizar seus próprios investimentos adicionais. 

Este ano a Alemanha está disponibilizando 108 bilhões de euros para gastos militares (ou 3,5% do seu PIB) e esse número deve crescer para 153 bilhões de euros até 2029. O primeiro-ministro Friederich Mertz já declarou que seu país terá as forças armadas mais fortes da Europa. 

Menos ambiciosa (e também por conta de um preocupante déficit fiscal) a França estima gastar menos: cerca de 80 bilhões de euros anuais até 2030. A Polônia sinaliza para 2026 despesas militares de 44 bilhões de euros (4,7% do seu PIB) e planeja ter um dos maiores e mais bem equipados exércitos da Europa. 

Em outubro de 2025 a Comissão Europeia apresentou seu roteiro para a “prontidão da defesa” até 2030, que pressupõe ampliação e modernização da indústria de defesa do continente, além de compras conjuntas de sistemas de artilharia, munições, drones e itens utilizados pelas forças aéreas.

No mês seguinte, divulgou um novo pacote de medidas para reforçar a mobilidade militar da região. 

“No entanto, simplesmente gastar mais não basta. Os Estados-Membros precisam gastar melhor, trabalhar em conjunto e priorizar as empresas europeias. A UE pode apoiar este processo ajudando os Estados-Membros a coordenar os seus investimentos e a desenvolver equipamentos de defesa na Europa”, acrescenta o mesmo documento.

No Parlamento o “ReArm Europe suscitou debates”, segundo documento oficial dos eurodeputados: “Embora muitos congratulem-se com a sua ambição e com o papel crescente da UE na defesa, persistem preocupações relativamente à supervisão democrática, à fragmentação do mercado da defesa e à sustentabilidade económica (...) Os próximos meses serão cruciais para determinar se o ReArm Europe conseguirá concretizar um esforço de defesa europeu verdadeiramente coordenado e resiliente”.

Apesar de ressalvas como essas, naturais no ambiente legislativo onde diferentes tendências se encontram e debatem, o fato é que o Parlamento Europeu manifestou, já março de 2025, claro apoio ao reforço da defesa europeia, sugerindo inclusive uma “estratégia a longo prazo”.

No Conselho Europeu, que congrega chefes de estado e de governo, o endosso a um rearmamento do continente também é evidente. Em dezembro último a casa divulgou comunicado em que dizia apoiar “medidas para incentivar e simplificar os investimentos em defesa na UE” por meio da adoção formal de um regulamento que altera cinco programas-chave da UE nesse campo.

E o que pensa a opinião pública sobre o rearmamento?

Segundo o think tank independente European Policy Center, com sede em Bruxelas, defesa e segurança tornaram-se preocupações crescentes entre os cidadãos da União Europeia de forma geral. Eles assistem de perto aos efeitos da guerra na Ucrânia e convivem com o crescente número de ataques híbridos contra infraestruturas críticas do continente, sempre atribuídos a Moscou.

Recente  pesquisa do Eurobarômetro  (mecanismo de pesquisa da Comissão Europeia sobre a opinião pública) 80% dos cidadãos da região acreditam que a cooperação em matéria de defesa deve ser intensificada. E 77% são a favor de uma política entre os países membros nessa área.

71% dos entrevistados concordam que o bloco precisa reforçar sua capacidade de produzir equipamentos militares e 80% afirmam que a compra de equipamentos bélicos deve ser bem coordenada.

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