Ciro Dias Reis
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Ciro Dias Reis

Especialista em comunicação e temas internacionais. Fundador e CEO da Imagem Corporativa, é board member da International Communications Consultancy Organization e membro do Copenhagen Institute for Future Studies. Foi também global chairman da rede global PROI Worldwide

Canadá e Europa ampliam parceria diante de novo contexto global

Por décadas fortes aliados dos Estados Unidos, ambos os territórios buscam alternativas diante das incertezas nas relações com Washington

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O mundo dá voltas. A geopolítica e a economia, também.

É o que se poderia dizer de um movimento de peso ensaiado há semanas e consolidado ontem, quarta-feira (16). A data marcou oficialmente o início de uma nova etapa nas relações da UE (União Europeia) com o Canadá.

Naquele que é considerado, pelo protocolo do bloco, o discurso mais importante do ano (e por isso mesmo foi batizado de “Estado da União”) a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, propôs em Estrasburgo, na França, que o Canadá se torne o primeiro "membro associado" da União Europeia.

Trata-se de uma iniciativa destinada a valorizar a crescente proximidade do país da América do Norte com seus aliados do outro lado do Atlântico, à medida que ambos enfrentam uma deterioração em suas relações políticas e econômicas com o atual governo americano, tendo ainda em comum ainda as preocupações relativas aos temas de segurança e defesa.

“Devemos repensar urgentemente nossas parcerias”, disse von der Leyen dirigindo-se ao primeiro-ministro Mark Carney, convidado especial do encontro. Em discurso de mais de uma hora ela abordou também vários outros temas bastante caros a Europa neste momento, tais como Inteligência Artificial; mudanças climáticas; equilíbrio fiscal e competitividade industrial. Além, evidentemente, das preocupações com a proteção do continente diante da guerra na Ucrânia e do avanço de ações da Rússia em direção ao território europeu.

O anúncio de um novo estágio da parceria com o Canadá foi recebido com longos aplausos pelas autoridades europeias presentes em Estrasburgo. Carney e von der Leyen cumprimentaram-se calorosamente. Ela destacou os laços entre o continente e os canadenses, mencionando que o comércio bilateral aumentou mais de 75% em menos de uma década. “É urgente reinventar nossas alianças", disse a presidente da Comissão Europeia.

“Vemos o mundo com os mesmos olhos, da IA à mudança climática, do Ártico à geopolítica” acrescentou a representante de Bruxelas, conclamando os aliados a construírem "um futuro comum".

E acrescentou, politicamente, que a proposta "não é uma parceria contra ninguém", mas uma medida "em prol de nossa força comum".
O status de membro associado não está juridicamente definido pelas regras da União Europeia e faltam ainda detalhes acerca de como essa adesão especial seria realizada. A Alemanha, anteriormente, já havia proposto medida similar para abrigar a Ucrânia e sugerido que a Kiev seria permitido participar de reuniões e cúpulas europeias, embora sem direito a voto.

Bruxelas e Ottawa buscam aprofundar alianças num momento em que estão sob pressão dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump abriu uma guerra comercial contra o vizinho e parceiro de longa data e também impôs uma alta de tarifas a países europeus. Além disso, reduziu fortemente o apoio aos aliados da Otan, levando a uma corrida dos países europeus rumo a um rearmamento.

“As ameaças híbridas enfrentadas pela Europa são cada vez menos híbridas e cada vez menos ameaças”, afirmou Von der Leyen, mencionando o incidente com um drone armado no Aeroporto de Leipzig, na Alemanha, como uma "tentativa de ataque" e deixando clara a percepção de que tais incidentes têm origem em território russo. “Ciberataques e sabotagem, incêndios criminosos e incursões com drones estão aumentando a cada dia. Portanto, à medida que o nível de ameaça aumenta, também deve aumentar a preparação da Europa”.

A líder de Bruxelas sugeriu a criação de um Conselho Europeu de Segurança — que reuniria, além dos Estados-membros do bloco, também a Noruega, o Reino Unido e o próprio Canadá.

Em janeiro deste ano o primeiro-ministro Mark Carney proferiu um discurso de grande repercussão no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, no qual destacou que a ordem mundial enfrentava "uma ruptura, não uma transição", e que caberia às potências médias agir em conjunto, pois, “se não estivermos à mesa, estaremos no cardápio".

O movimento de maior aproximação do Canadá com a Europa, sem dúvida, materializa aquela ideia.

O governo canadense sob a liderança de Carney também tem procurado alternativas para aumentar as próprias capacidades de defesa. Uma das ações lideradas por Ottawa diz respeito aos esforços para a criação do Banco de Defesa, Segurança e Resiliência (DSRB, na sigla em inglês) com o objetivo de aumentar a captação de recursos destinados à defesa.