Eleições na pequena Bulgária são ponto de interrogação na Europa
UE se pergunta quais os desdobramentos das eleições realizadas no último domingo (19) no país membro de 6,5 milhões de habitantes, cuja relevância aumenta nestes tempos de sensibilidades geopolíticas

A UE (União Europeia) respirou aliviada há pouco mais de dez dias com os resultados das eleições na Hungria.
Elas apontaram uma vitória arrasadora do oposicionista Peter Magyar, que deve reintegrar o país ao bloco depois de um grande distanciamento determinado pelo antecessor Viktor Órban, o amigo eurocético de Vladimir Putin.
Prestes a ver reconstruídas as pontes institucionais com a Hungria, a União Europeia se pergunta agora quais os desdobramentos das eleições realizadas no último domingo (19) em outro país membro, de apenas 6,5 milhões de habitantes, mas cuja relevância aumenta muito nestes tempos de sensibilidades geopolíticas.
As urnas falaram na Bulgária e elegeram, também por larga margem, Ruman Radev, oficial aposentado da força aérea e político experiente que ocupou a presidência da república de janeiro de 2017 a janeiro de 2026, tendo deixado o posto para buscar o cargo de primeiro-ministro.
Várias interrogações estão sobre a mesa. A primeira delas diz respeito ao relacionamento que o novo governo estabelecerá com o mesmo Vladimir Putin, a quem já se mostrou simpático em episódios anteriores.
Rumen Radev concorreu pela primeira vez à presidência em 2016, indicado pelo BSP (Partido Socialista Búlgaro), sucessor do Partido Comunista Búlgaro que havia governado o país de 1944 a 1990.
Na época, foi noticiado que sua candidatura havia sido discutida em Moscou e passado pelo crivo do Kremlin. O fato é que, desde aquele momento ,o tema das relações entre o novo primeiro-ministro e Moscou tem permanecido no radar na imprensa e da opinião pública, ganhando mais peso a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.
Após o início do conflito, Radev disse que a Rússia deveria suspender as operações militares, mas posteriormente adotou uma narrativa crítica em relação à Ucrânia e à própria UE.
Ele passou a argumentar que o fornecimento de apoio militar a Kiev apenas prolongava a guerra e definiu a contraofensiva ucraniana como um erro. Além disso caracterizou como “belicistas” os políticos responsáveis pelo enviar de armas e munições ao governo de Volodymyr Zelensky.
Durante a campanha, Ruman Radev foi apoiado por uma aliança de três partidos e evitou dar sinais claros acerca dos rumos que daria a seu governo caso fosse eleito. Isso levanta muitas dúvidas sobre sua efetiva disposição de manter a postura pró-europeia da Bulgária em relação à Ucrânia, adotada pelos dois últimos governos.
Também resta saber se ele conseguirá bloquear decisões comuns da UE sobre a Ucrânia, como fez o ex-primeiro-ministro húngaro Viktor Orban.
"Eu não o compararia com Órban ou Robert Fico, da Eslováquia", disse Pavol Szalai, diretor do Escritório do Repórteres Sem Fronteiras em Praga à rede alemã de notícias Deutsche Welle.
Ele se referia aos dois líderes de extrema direita de reconhecida disposição para divergir de Bruxelas. Mas ressaltou que a “propaganda russa é difundida na Bulgária" e que esse "é um dos principais problemas para os cidadãos e seu acesso à informação".
Segundo Catherine Belton, do jornal americano The Washington Post, os riscos causados pela desinformação russa pareciam ser tão grandes no país que "o Ministério das Relações Exteriores de Sofia criou uma unidade especial em coordenação com a Comissão Europeia para tentar combater a possível interferência russa".
Radev rebateu dizendo que isso era uma tentativa de Bruxelas de interferir na votação.
A especialista Maria Simenova, do European Council on Foreign Relations, não acredita que o novo primeiro-ministro búlgaro possa, “pelo menos num primeiro momento”, distanciar-se bruscamente de Bruxelas e alinhar-se a Moscou.
Mas os fantasmas do euroceticismo de Viktor Órban na Hungria rondam agora a Bulgária. Isso porque não está totalmente descartada a possibilidade de Radev ampliar a aliança de partidos que lhe dá suporte para, eventualmente, substituir pessoas no judiciário e em outras instituições nacionais importantes.
O temor de Bruxelas é de que tais movimentos, que se multiplicaram nos corredores do poder em Budapeste, possam se repetir em Sofia durante o novo governo local.
Por essa razão, foram bastante cautelosas as palavras da presidente da Comissão Europeia, Ursula van der Leyen, ao comentar as eleições do último fim de semana.
"A Bulgária é um orgulhoso membro da família europeia e tem um papel importante no enfrentamento de nossos desafios comuns”, postou ela nas redes sociais. “Espero que possamos trabalhar juntos para a prosperidade e a segurança da Bulgária e da Europa”, acrescentou.



