Clarissa Oliveira
Blog
Clarissa Oliveira

Viveu seis anos em Brasília. Foi repórter, editora, colunista e diretora em grandes redações como Folha, Estadão, iG, Band e Veja

Análise: Agenda dos EUA se impõe e deixa Lula em modo de espera

Incerteza segue guiando conversas entre o presidente brasileiro e Donald Trump

Compartilhar matéria

Faz uma semana que Donald Trump subiu na tribuna na Assembleia-Geral da ONU e soltou frases que soaram como música aos ouvidos da diplomacia brasileira. Química, negócios, conversa.

O presidente brasileiro, firme no seu discurso de defesa da soberania nacional, conseguiu do poderoso líder americano uma promessa pública de uma conversa na semana seguinte. Mas, até agora, nada de concreto saiu dali.

Nesta semana, a agenda americana se sobrepôs aos anseios do Brasil. Afinal, Trump lida, neste momento, com questões como o shutdown na economia local e a negociação sobre Gaza.

Mas fato é que o maior efeito prático obtido até agora com a fala de Trump na ONU foi um esvaziamento das críticas feitas por Lula minutos antes do afago do presidente americano, resultado de um jogo de comunicação muito bem-sucedido.

Neste momento, o Brasil e Lula estão em modo de espera. Existem duas versões principais sobre o andamento do diálogo.

A primeira vem da diplomacia brasileira. Ali, parece se consolidar a ideia de que um encontro presencial pode vir, quem sabe, mais à frente. Possivelmente durante um evento na Malásia no fim do mês.

Ali, tentou-se tirar dos Estados Unidos o compromisso de uma conversa por vídeo no curto prazo, dizendo ser uma alternativa com menor risco de constrangimento para Lula.

Mas, no círculo pessoal do presidente, o tom é diferente. Os relatos ali dão conta de que Lula sempre quis um encontro presencial com Trump. Nunca se preocupou com o risco de constrangimento, pelo contrário.

Mostra-se muito confiante de que consegue manter sem problemas foco nos temas que interessam ao Brasil e reiterar a defesa da soberania nacional.

Mas Lula não gostou de algumas das sugestões para que fosse recebido em um ambiente informal, como Mar-a-Lago, resort do presidente americano na Florida.

Chegou a ironizar essa possibilidade em conversas reservadas. Os mais próximos, dizem que Lula e Trump não são amigos para “um ir à casa do outro”. E que o melhor, na visão do presidente, seria que um encontro presencial ocorresse em solo americano, mais especificamente na Casa Branca.

O time de Lula concorda que um simples telefonema resolveria muita coisa e ajudaria a dar ritmo a uma renegociação do tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao Brasil. Mas o governo sabe bem que a vantagem aqui está no campo americano. E que o Brasil está distante do topo da lista de prioridades de Trump.

Neste momento, há pouco a se fazer para tentar destravar o diálogo. Mas fica a dúvida sobre a real intenção do governo americano de avançar nas conversas.