Clarissa Oliveira
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Clarissa Oliveira

Viveu seis anos em Brasília. Foi repórter, editora, colunista e diretora em grandes redações como Folha, Estadão, iG, Band e Veja

Análise: PL Antifacção azeda clima entre Hugo Motta e governo

Após críticas, Palácio do Planalto trabalha para manter pontes com presidente da Câmara dos Deputados

Guilherme Derrite, relator do Marco da Segurança  • Marina Ramos/Câmara dos Deputados
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Foram três redações diferentes em apenas cinco dias, muitas trocas de ataques e falas públicas. Embora a tramitação do Projeto de Lei Antifacção ainda nem tenha terminado, as negociações dos últimos dias deixaram como resultado um forte desgaste na relação entre o governo federal e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).

Neste momento, há no entorno do presidente da Câmara um incômodo voltado principalmente à bancada do PT. A avaliação é que os parlamentares, sob liderança de Lindbergh Farias (PT-RJ), trabalharam para desgastar Hugo Motta após a escolha de Guilherme Derrite (PP-SP) para relatar o projeto, sem aguardar o andamento das negociações para que o projeto fosse ajustado.

O desgaste seria maior, dizem interlocutores do presidente da Câmara, não fosse a postura colaborativa de outros membros do governo. Foram feitos elogios, por exemplo, ao ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e ao diretor-geral da PF (Polícia Federal), Andrei Rodrigues. Ambos também criticaram abertamente o relatório de Derrite, mas, na visão de aliados de Hugo, contribuíram para solucionar o impasse.

Como mostrou a CNN, o Planalto trabalha para restabelecer as pontes com o comando da Câmara. A ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, chegou a pedir uma conversa com Hugo.

Por enquanto, segundo relatos de interlocutores, o presidente da Câmara deve tomar alguma distância. Hugo até agora não concordou com uma reunião com Gleisi. Fez chegar ao governo que está com a “agenda apertada”, até por conta dos ajustes que ainda precisam ser feitos para que o projeto possa avançar para votação.

A entrega da relatoria do PL Antifacção a Derrite gerou desgaste desde o primeiro momento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a telefonar no fim de semana para Hugo Motta, para manifestar a preocupação com a escolha. Derrite é secretário – atualmente licenciado – de Segurança Pública Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), potencial candidato da oposição ao Planalto no ano que vem.

A aposta de Hugo Motta sempre foi a de que a escolha de um nome da oposição era o único caminho para dar andamento ao projeto do governo e evitar que a direita seguisse abraçando a proposta que equipara facções a organizações terroristas. A ideia era forçar uma negociação para viabilizar a entrega.

O Planalto, entretanto, considerou o relatório de Derrite “desastroso”. O texto esvaziava o poder da PF (Polícia Federal) e fazia alterações na Lei Antiterrorismo, o que motivou a reação intensa do campo governista. Líder do PT, Lindbergh Farias disse que o governo Lula foi vítima de “furto com abuso de confiança”.