Análise: Tarcísio sobe o tom e veste figurino anti-Lula
Governador de São Paulo faz discurso de candidato, mas clima nos bastidores ainda é de cautela

Depois de uma largada confusa no debate sobre o tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), parece ter encontrado um figurino para vestir. O gestor estadual, que recuou depois de flertar com as sanções norte-americanas e manteve-se mais discreto nas últimas semanas, subiu o tom. Mas, desta vez, vestindo um novo figurino: contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Tarcísio esteve nesta quarta-feira (13) em um evento do BTG Pactual, onde proferiu algumas das suas mais incisivas falas nas últimas semanas.
“A gente anda numa ciranda discutindo picuinha. O Brasil não aguenta mais excesso de gasto, não tolera mais aumento de imposto, o Brasil não aguenta mais corrupção. O Brasil não aguenta mais o PT, o Brasil não aguenta mais o Lula. O mundo tá de porta aberta para o Brasil, a gente já fez grandes coisas. É só trocar o piloto porque o carro é bom para caramba", disse Tarcísio.
Dadas as especulações sobre o futuro político de Tarcísio, é difícil não imaginar que essa fala poderia se encaixar com perfeição na boca de um candidato à Presidência. Na plateia, estavam empresários e agentes do mercado, reunidos para discutir temas ligados ao agronegócio. No palco, Tarcísio teve o reforço de outros governadores de direita, igualmente empenhados em elevar o tom crítico ao governo federal.
O discurso, naturalmente, pode ser visto como um sinal importante do governador diante das perspectivas que se anunciam para seu padrinho político, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tarcísio falou no mesmo dia em que a defesa de Bolsonaro apresentou suas alegações finais no processo da trama golpista, o último estágio da ação penal antes do julgamento.
Nos bastidores, entretanto, o tom ainda é de muita cautela em relação a 2026. É claro que a possibilidade de uma candidatura presidencial permanece no radar dos aliados do governador. Mas também há o entendimento de que são muitos os fatores com potencial de melar qualquer movimento nessa direção.
Um deles é a perspectiva de uma recuperação da popularidade de Lula. Uma fonte próxima a Tarcísio resumiu o sentimento da seguinte forma: o petista tende a melhorar sua imagem junto ao eleitor, porque o governo fará o que for preciso para alcançar esse objetivo. E, confirmando-se um contexto em que Lula largue com força na corrida, não faria muito sentido o governador deixar o cargo para disputar o Planalto.
Outro fator é o prazo de desincompatibilização. Para concorrer ao Palácio do Planalto, Tarcísio teria que deixar o cargo de governador já em abril do ano que vem, por exigência da lei eleitoral. Teria, assim, que entregar o Palácio dos Bandeirantes sem a certeza de que conseguiria liderar uma campanha competitiva contra o PT.
Por fim, ainda de acordo com interlocutores de Tarcísio, há a divisão na direita. Aqui reside um dos maiores obstáculos a uma movimentação do governador. Afinal, a família Bolsonaro segue perseguindo um protagonismo na corrida presidencial, com nomes como Eduardo Bolsonaro (PL-SP) batendo de frente com o próprio Tarcísio. Isso sem contar o movimento de outros políticos de direita que tentam se cacifar na disputa.
No time de Tarcísio, há quem diga que, no atual momento, seria perfeitamente plausível uma candidatura de Michelle Bolsonaro (PL) à Presidência, por exemplo. Que ainda poderia vir acompanhada da entrada de um nome de centro-direita no páreo, por uma legenda como o PSD.
Ou seja, Tarcísio ainda prefere olhar com cautela para o cenário de 2026, de acordo com aliados mais próximos. Mas tudo vai depender, claro, do que vier pela frente até que se aproxime de fato o início do ano eleitoral.



