Cleber Rodrigues
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Cleber Rodrigues

Gaúcho radicado no Rio. Há quase 20 anos traduzindo os fatos com leveza, responsabilidade e bons bastidores. Quase sempre acompanhado de um café.

Criminosos adaptam técnicas da Guerra da Ucrânia ao uso de drones no Rio

Autoridades e especialistas alertam para o avanço dos drones com explosivos no RJ

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Na madrugada da última terça-feira (4), uma casa no Morro do Sereno, no Complexo da Penha, foi atingida por um artefato explosivo. Segundo informações preliminares, a granada foi lançada por um drone durante uma disputa entre criminosos do CV (Comando Vermelho) e do TCP (Terceiro Comando Puro).

O ataque é mais um capítulo de uma escalada que preocupa as forças de segurança. Um levantamento exclusivo do blog mostra que, desde o primeiro caso de lançamento de explosivo por drone, há dois anos, criminosos vêm aperfeiçoando os artefatos lançados remotamente por aeronaves não tripuladas, em uma dinâmica que especialistas associam à adaptação de técnicas empregadas na Guerra da Ucrânia.

Na primeira ocorrência, registrada em julho de 2024, na Favela do Quitungo, em Brás de Pina, Zona Norte do Rio, traficantes lançaram uma “bomba caseira” durante uma disputa territorial entre integrantes do CV e do TCP. Após análise técnica, agentes do Esquadrão Antibomba da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE) confirmaram que se tratava de um artefato produzido de forma artesanal, sem indícios de industrialização.

 

 

Menos de um ano depois, a Polícia Civil foi acionada para uma ocorrência envolvendo o lançamento de um artefato explosivo por drone na Favela do Morro do Fubá, também na Zona Norte, durante um confronto entre organizações criminosas rivais. Na ocasião, foi identificada uma mudança no formato da granada, tornando o equipamento mais eficiente para o lançamento por drones e para a detonação.

Em junho de 2025, criminosos lançaram um explosivo por drone sobre uma praça em Madureira, na Zona Norte do Rio. O local estava cheio de crianças e, por sorte, ninguém ficou ferido. Após uma operação da Desarme (Delegacia Especializada em Armas, Munições e Explosivos), o Esquadrão Antibomba apurou que os explosivos haviam sido produzidos com perclorato — substância química utilizada na fabricação de fogos de artifício — e continham pregos em seu interior.

Segundo levantamento produzido com base em reportagens da CNN Brasil, nos últimos dois anos, o Esquadrão Antibomba da CORE foi acionado ao menos 11 vezes para atender ocorrências envolvendo granadas lançadas por drones. Entre os registros, há ataques que atingiram casas de moradores, uma igreja e até uma creche municipal no Jardim América, na Zona Norte do Rio.

Em uma das apreensões realizadas neste ano, as investigações identificaram indícios de aperfeiçoamento dos artefatos explosivos, com características compatíveis com técnicas empregadas em conflitos armados para aumentar a letalidade das explosões. A constatação reforça a preocupação das autoridades com a evolução do conhecimento técnico empregado por organizações criminosas na fabricação desses dispositivos.

No último sábado (01), duas crianças ficaram feridas por estilhaços provocados pela explosão de uma bomba durante uma festa em Cordovil, na Zona Norte do Rio.

Apesar dos casos registrados, autoridades acreditam que haja subnotificação, já que a maioria das ocorrências não chega a ser oficialmente registrada.

Investigações em andamento na Polícia Civil do Rio de Janeiro apuram se criminosos do estado viajaram ao Leste Europeu para aprender técnicas de guerra. Um dos casos investigados envolve o traficante do Comando Vermelho, Philipe Marques Pinto, flagrado em vídeos no ano passado portando um fuzil AK-47 durante a Guerra da Ucrânia.

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O que dizem especialistas e autoridades

Para o delegado Fabricio Oliveira, titular da CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais), diante do avanço da atuação das organizações criminosas no Rio de Janeiro, o emprego de drones táticos armados, inclusive com explosivos, precisa ser debatido como alternativa operacional.

“A Operação Contenção, nos Complexos do Alemão e da Penha, deixou isso muito claro. Foi uma grande ação, com 2500 agentes, e a gente percebeu uma atuação orquestrada pelo crime organizado para emboscar os policiais, resistindo à atuação do Estado, inclusive com a utilização de drones para lançar explosivos”, afirmou Oliveira.

Além disso, o delegado avalia que episódios antes considerados pontuais passaram a fazer parte do cotidiano, refletindo uma clara influência de conflitos internacionais, principalmente da Guerra da Ucrânia, sobre a realidade do Rio de Janeiro.

“Existem dados de inteligência que apontam para uma troca de informações e a presença de criminosos do Rio de Janeiro na Guerra da Ucrânia, onde eles têm acesso a esse tipo de tecnologia. Eles aprendem e transmitem o conhecimento aos comparsas”, avaliou o chefe da CORE, acrescentando que ataques com drones precisam ser punidos de forma exemplar para reduzir os riscos à população fluminense.

Influência Internacional

Na avaliação de Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador da Universidade de Coimbra, é evidente o processo de difusão tática transnacional, com adaptações à dinâmica do crime organizado no Rio de Janeiro.

“Ao migrar para o vetor aéreo, as facções projetam força além das barreiras físicas do território, reduzem a exposição direta dos seus quadros ao confronto armado e maximizam o impacto psicológico, tanto sobre grupos rivais quanto sobre o Estado”, avalia Uchôa.

Para o especialista, o maior desafio está no fato de que o drone comercial é um equipamento de duplo uso, de fácil acesso e baixo custo.

“A resposta prioritária deve centrar-se na inteligência estrutural. Desarticular as redes de suprimento de explosivos e identificar as células técnicas especializadas na adaptação dos artefatos”, disse.

“A tecnologia antidrone (como jamming ou intercepção) é necessária para a proteção pontual de perímetros e forças em operação, mas traz riscos de danos colaterais muito severos. É a sufocação da cadeia logística e financeira que desmonta a capacidade operacional do grupo a médio e longo prazo”, finalizou.