Débora Oliveira
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Débora Oliveira

Certificada pelo Programa B3 de Formação Continuada em Mercado de Capitais para jornalistas com atuação em grandes emissoras, como SBT, Band e RedeTV, e analista de economia sem economês

Acordo Mercosul-UE é estratégico para o Brasil, mas não instantâneo

Entenda o que muda a partir de hoje e quando os efeitos chegam ao consumidor

Bandeiras do Mercosul e da União Europeia (UE)
Bandeiras do Mercosul e da União Europeia (UE)  • Reprodução/Ipea
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Depois de 26 anos de negociações, o Mercosul e a União Europeia assinam, finalmente, neste sábado (17), o acordo comercial que cria uma das maiores áreas de livre comércio do planeta. O gesto é histórico, simbólico e estrategicamente relevante. Mas é importante deixar claro que: a assinatura não produz efeitos imediatos na economia nem no bolso do consumidor brasileiro.

O documento firmado hoje formaliza um entendimento político e jurídico entre os blocos, mas ainda precisa cumprir um longo caminho até começar a valer de fato. Isso inclui processos individuais de ratificação nos parlamentos nacionais do Mercosul e da União Europeia, além de possíveis questionamentos jurídicos no lado europeu.

Vale lembrar que é o próprio acordo que estabelece que as reduções de tarifas e a abertura de mercados não acontecem automaticamente após a assinatura. Elas seguem cronogramas graduais, que podem se estender por anos, dependendo do produto. Além disso, antes que qualquer mudança prática ocorra, é necessário:

  • aprovar o texto no Parlamento Europeu,
  • passar por eventuais avaliações jurídicas,
  • ratificar o acordo nos parlamentos dos países do Mercosul,
  • regulamentar regras operacionais e aduaneiras,
  • e, por fim, esgotar estoques já importados sob as regras atuais.

Por isso, para os economistas, a expectativa mais realista é de que os primeiros efeitos práticos para o consumidor brasileiro só comecem a ser sentidos no fim de 2026, com impacto mais claro a partir de 2027.

E, apesar da grande expectativa para as vantagens econômicas, o ganho mais relevante do acordo, nesse momento, é estratégico. Para o economista Igor Lucena, ex-presidente do Corecon, a assinatura recoloca o Brasil e o Mercosul no radar global:

“Do ponto de vista estratégico, o Brasil vinha perdendo espaço político na América Latina. Essa assinatura faz com que o Mercosul saia de um status de irrelevância política para se tornar parte de um dos principais acordos comerciais do planeta.”

Segundo ele, o acordo também ajuda a reduzir tensões internas no bloco, em um momento em que países como Argentina e Uruguai ensaiavam buscar acordos bilaterais fora do Mercosul.

Além disso, o momento internacional torna o acordo ainda mais valioso. Com a política comercial dos Estados Unidos mais instável, marcada por tarifas e renegociações, o acesso ao mercado europeu é um ativo estratégico.

“Empresas de fora da América Latina podem passar a se instalar no Mercosul para usar recursos naturais brasileiros e exportar para a União Europeia. Isso aumenta o interesse global pelo bloco”, afirma Lucena.

O benefício para o Brasil, muito além do preço, será o da transformação.
Apesar de produtos como vinhos, destilados e queijos europeus estarem sempre entre os mais citados quando se fala em possíveis reduções de custos, o principal ganho brasileiro está em outro lugar: competitividade e modernização.

O acordo obriga o Brasil a se abrir mais ao comércio internacional, o que tende a pressionar a indústria nacional por mais produtividade, mais eficiência, menos dependência de subsídios e melhor alocação de capital.

“A indústria brasileira vai ser obrigada a se modernizar. Não vai mais conseguir sobreviver apenas de subsídios fiscais. Vai ter competição direta com países como Alemanha, Itália e Polônia”, diz Lucena.

Na avaliação do especialista, esse choque competitivo pode corrigir distorções históricas e forçar o país a se especializar em setores nos quais é realmente mais eficiente.

Já sobre quando o consumidor pode sentir alguma diferença, Lucena é mais cauteloso. Ele diz que os efeitos práticos no bolso, como produtos mais baratos, talvez só em dezembro deste ano seja possível e enfatiza que comparações mais claras só devem aparecer em 2027, já que até o ano passado não tínhamos acordo efetivado para fins comparativos. Ou seja, o acordo não muda os preços agora, nem nos próximos meses. E o impacto, quando vier, será gradual.

Além disso, ainda há riscos no caminho. E eles estão concentrados principalmente na Europa. A professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá, Carol Pavese, alertou, em entrevista para a CNN Brasil, que a assinatura não encerra o processo.

“A gente comemora porque são 26 anos de negociação, mas não dá para considerar que o acordo já está finalizado ou em vigor.”

Segundo ela, um grupo de cerca de 150 deputados europeus conseguiu levar adiante uma moção que será votada no Parlamento Europeu no dia 21 de janeiro, pedindo que o texto seja submetido à avaliação jurídica da Corte Europeia.

“Se essa moção passar, a Corte pode levar até dois anos para julgar a constitucionalidade do acordo, o que suspenderia o processo de ratificação do lado europeu”, explica.

Por isso, é importante distinguir dois caminhos que temos a seguir: um acordo interino, focado na parte comercial, que poderia entrar em vigor mais rapidamente; e o acordo permanente, mais amplo, que inclui capítulos políticos e de cooperação e depende da ratificação dos 27 países da União Europeia, sem prazo definido.

Países como França e Polônia seguem como focos de resistência, especialmente por pressões de seus setores agrícolas.

Então, hoje, podemos concluir que a assinatura do acordo Mercosul-União Europeia não é um ponto de chegada, mas um ponto de virada neste tratado que se arrasta há décadas. A assinatura não derruba os preços amanhã, não muda tarifas de forma imediata e não elimina riscos políticos. Mas recoloca o Brasil e o Mercosul em uma rota mais integrada ao comércio global, em um momento de fragmentação econômica e tensões geopolíticas.

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