Setor privado aposta em exceções diante de tarifa considerada irreversível
Depois das audiências do USTR, expectativa deixa de ser a suspensão do tarifaço e passa a ser a ampliação das exceções

Depois de acompanhar os dois dias de audiências promovidas pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos), duas fontes, que estiveram presentes nas reuniões, resumem o ambiente praticamente da mesma forma: a percepção entre empresários e negociadores é de que a imposição das tarifas dificilmente será revertida.
Após esse consenso, a expectativa passou a ser outra.
Em vez de insistir na retirada integral da medida, o setor privado brasileiro passou a concentrar esforços na ampliação da lista de produtos que poderão ficar de fora da taxação.
Nos bastidores, a avaliação é que, se a tarifa vier próxima de 25%, acompanhada de uma lista robusta de exceções, o impacto poderá ser significativamente menor para parte importante da indústria exportadora brasileira.
Essa mudança de percepção ajuda a entender o tom das audiências realizadas nesta semana. Os debates tiveram um perfil essencialmente técnico, distante da retórica política que tem marcado essa disputa comercial com os Estados Unidos desde o início do tarifaço.
O governo americano queria uma resposta a uma pergunta simples, mas decisiva: os produtos brasileiros são realmente indispensáveis para a economia dos Estados Unidos? E, se deixarem de entrar no mercado americano, existe oferta suficiente de outros países para substituí-los?
Foi sob essa lógica que empresas, associações e representantes de diversos segmentos construíram seus argumentos.
"O debate foi bastante objetivo, procurando entender se os produtos brasileiros, nas mais diversas categorias, eram realmente essenciais para a economia americana e se eram substituíveis ou não. Vários setores apresentaram colocações bastante pertinentes", afirmou José Pimenta, sócio da BMJ Consultoria e diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Fiesp, em entrevista ao CNN Morning Call. Ele também participou das audiências, em Washington.
A discussão, portanto, deixou de ser apenas diplomática. Tornou-se econômica.
Cada setor precisou demonstrar não apenas sua importância para as exportações brasileiras, mas principalmente o custo que uma tarifa adicional pode representar para empresas americanas que dependem desses insumos.
Foi justamente nesse ponto que o setor produtivo brasileiro encontrou espaço para avançar.
Em diversos casos, empresas americanas também reforçam essa posição, defendendo que determinados produtos brasileiros permanecessem na lista de exceções por serem estratégicos para suas cadeias produtivas.
Esse talvez tenha sido um dos sinais mais relevantes das audiências.
Quando empresas dos Estados Unidos defendem a manutenção das importações brasileiras, a discussão deixa de ser um tema exclusivamente brasileiro e passa a envolver o próprio interesse econômico americano. Em disputas comerciais, esse costuma ser um argumento com maior peso do que qualquer apelo diplomático.
Agora, todas as atenções se voltam para o dia 15 de julho, quando o governo americano deve anunciar sua decisão final. Até lá, ainda estão previstas novas conversas entre autoridades brasileiras e americanas.
Mas o sentimento predominante entre quem participou das negociações é de realismo.



