Fernanda Magnotta
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Fernanda Magnotta

PhD especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de Relações Internacionais

Análise: As mil faces do acordo nuclear entre os EUA e a Arábia Saudita

Pacto visa reorganizar o Oriente Médio, mas a questão é saber se conseguirá conterá a rivalidade regional ou abrirá caminho para uma nova corrida estratégica

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Reduzir o acordo firmado entre Estados Unidos e Arábia Saudita a uma cooperação para energia nuclear civil é perder de vista o movimento geopolítico mais relevante. O que está em curso não é apenas uma negociação sobre reatores. É uma tentativa de redesenhar a arquitetura de poder do Oriente Médio para as próximas décadas.

Ao longo dos últimos anos, Washington viu sua influência relativa no Golfo ser desafiada pela crescente presença chinesa, pelo retorno da Rússia como ator regional e pelo fortalecimento da autonomia diplomática saudita. A aproximação entre Riad e Pequim, simbolizada pelo restabelecimento das relações entre Arábia Saudita e Irã mediado pela China em 2023, mostrou que os parceiros tradicionais dos Estados Unidos passaram a diversificar suas opções estratégicas.

É justamente essa tendência que o novo acordo procura conter.

A cooperação nuclear cria um vínculo tecnológico, industrial e regulatório de longo prazo entre norte-americanos e sauditas. Diferentemente de uma venda de armamentos, trata-se de uma relação que exige décadas de investimentos, treinamento de pessoal, transferência de conhecimento, cadeias de suprimentos e supervisão internacional. Em outras palavras, a energia nuclear torna-se instrumento de influência geopolítica.

Nesse contexto, o aspecto nuclear é apenas uma peça de um tabuleiro muito maior. O verdadeiro objetivo norte-americano é evitar que o programa nuclear saudita seja estruturado com tecnologia chinesa ou russa e, ao mesmo tempo, reafirmar sua posição como principal parceiro estratégico do reino. O Departamento de Energia dos Estados Unidos descreveu o acordo como uma parceria de longo prazo voltada tanto para segurança quanto para competitividade tecnológica norte-americana.

Para Riad, os ganhos também são significativos. A Arábia Saudita amplia sua autonomia estratégica ao desenvolver capacidades nucleares civis, diversifica sua matriz energética dentro da chamada “Visão 2030” e fortalece sua posição como potência regional capaz de negociar simultaneamente com Washington, Pequim e Moscou. A lógica já não é de dependência, mas de barganha.

Esse movimento ocorre logo após um período de forte deterioração das relações entre Estados Unidos e Irã. Nesse ambiente, o acordo também funciona como um sinal político aos aliados árabes de que Washington continua disposto a garantir sua superioridade estratégica no Golfo. A mensagem é tão importante quanto o conteúdo técnico da negociação.

Mas estabilidade e dissuasão não são sinônimos de paz.

A principal preocupação dos especialistas reside no risco de proliferação. Parte das críticas decorre justamente das discussões sobre o grau de liberdade que a Arábia Saudita poderá ter para atividades relacionadas ao ciclo do combustível nuclear e sobre os mecanismos adicionais de verificação internacional. Esse debate já mobiliza o Congresso dos Estados Unidos e especialistas em não proliferação.

Também existe o risco de uma reação em cadeia. Se a Arábia Saudita consolidar um programa nuclear robusto, outros países do Oriente Médio poderão reivindicar tratamento semelhante. O Irã tende a interpretar o movimento como mais um componente de uma estratégia de contenção liderada pelos Estados Unidos, enquanto Israel acompanha a aproximação com ambivalência. Interessa-lhe uma Arábia Saudita firmemente ancorada no eixo norte-americano, mas qualquer expansão das capacidades nucleares sauditas inevitavelmente desperta cautela.

Há ainda uma dimensão diplomática adicional. Donald Trump passou a vincular a implementação do acordo à adesão saudita aos Acordos de Abraão, recolocando a normalização entre Riad e Israel no centro da estratégia regional dos Estados Unidos. Caso essa condição prospere, o pacto deixará de ser apenas energético para se transformar também em uma ferramenta de reorganização política do Oriente Médio.

O verdadeiro teste desse acordo, portanto, não será medido pelo número de reatores construídos. Será medido pela capacidade de transformar um instrumento de competição em um mecanismo de cooperação. Se conseguir integrar segurança, desenvolvimento econômico e aproximação política entre antigos adversários, poderá inaugurar uma fase de maior estabilidade. Se aprofundar a lógica de rivalidade e estimular uma corrida tecnológica e nuclear, terá apenas elevado o custo e a sofisticação das disputas que já definem o Oriente Médio contemporâneo.