Análise: Acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita gera alerta
Texto permite enriquecimento de urânio sem "padrão-ouro" de supervisão internacional e segue para análise do Congresso americano
O Departamento de Energia dos Estados Unidos assinou um acordo nuclear com a Arábia Saudita, permitindo o enriquecimento de combustível para reatores nucleares civis. O texto ainda precisa passar por um período de análise obrigatória no Congresso americano, mas já desperta atenção internacional pelo seu alcance histórico.
O tratado teria validade de 30 anos e não exige a adoção do chamado "padrão-ouro" de supervisão internacional — o nível mais rigoroso de fiscalização previsto pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).
O governo americano também envolveria empresas nacionais para fornecer produtos e funcionários ao programa saudita, embora as partes técnicas mais sensíveis não sejam transferidas.
Detalhes do acordo
Antes do início do processo de separação de urânio ou plutônio, equipes dos dois países avaliarão a justificativa e a viabilidade do projeto. Os americanos serão responsáveis por construir as instalações.
O acordo ainda impede os sauditas de desenvolver tecnologia de enriquecimento própria ou adquiri-la de outros países por uma década, ao mesmo tempo em que limita as inspeções ao programa.
Em publicação nas redes sociais, o Departamento de Energia afirmou que os textos "melhoram a segurança americana e regional, mantendo altos padrões de segurança na tecnologia nuclear", e que a parceria irá aprimorar a expertise dos Estados Unidos no tema.
O Ministério da Energia Saudita, por sua vez, apontou que o tratado visa aprimorar a cooperação entre as duas nações no uso pacífico da energia nuclear.
Contexto histórico e geopolítico
A discussão sobre o tema também não é recente: a administração de Joe Biden havia iniciado negociações envolvendo a normalização das relações entre a Arábia Saudita e Israel, e o próprio governo de Donald Trump manteve o acordo paralisado por meses diante de preocupações com a guerra envolvendo o Irã e uma possível rejeição no Senado.
O professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) e pesquisador de Harvard Vitélio Brustolin traçou um arco histórico para contextualizar o acordo, mencionando o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, de 1968, que entrou em vigor em 1970.
Segundo o especialista, o tratado previa que os cinco países com armas nucleares — membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, incluindo Estados Unidos, França, Reino Unido, China e, à época, União Soviética — reduziriam seus estoques, enquanto outros países se comprometeriam a não produzir armas nucleares.
Brustolin lembrou casos em que programas civis resultaram em capacidade militar, como Israel, Índia, Paquistão e Coreia do Norte.
Reações regionais e o papel da China
Países da região acompanham a parceria com atenção. Israel se posiciona com cautela sobre o acesso saudita à tecnologia nuclear: ex-chefes de governo e ministros da defesa classificaram o texto como "uma armadilha", enquanto o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, preferiu o silêncio.
O Irã, inimigo histórico dos sauditas, também observa atentamente e afirmou que seguirá com o próprio programa nuclear, mesmo após bombardeios contra suas infraestruturas energéticas.
O príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, já havia declarado publicamente, em 2018, que a Arábia Saudita produziria uma arma nuclear caso o Irã também conseguisse uma.
Vitélio Brustolin apontou que a China, maior compradora do petróleo saudita, havia mediado a reaproximação entre a Arábia Saudita e o Irã em 2023, ampliado investimentos na infraestrutura saudita e expandido vendas militares ao país, tornando-se candidata natural a fornecer reatores nucleares.
Segundo o professor, isso teria motivado os Estados Unidos a agir: "De uma forma ou de outra, haverá fornecedor para essa tecnologia. E havendo fornecedores que não serão os Estados Unidos, que podem ser oponentes, como a China ou a Rússia, os Estados Unidos precisam correr o risco de, mais uma vez, fornecer tecnologia civil com o risco de ela se tornar uma tecnologia militar."
Críticas e riscos do acordo
Um dos pontos mais críticos levantados na análise é justamente a ausência das fiscalizações da AIEA no texto. Brustolin citou reportagem do The New York Times segundo a qual essa omissão ocorre porque a Arábia Saudita considera tais inspeções excessivamente intrusivas.
Para ele, o único garantidor de que o programa não seria usado para fins militares, nesse cenário, seriam os próprios Estados Unidos.
O analista de Internacional da CNN Lourival Sant'Anna ressaltou ainda o interesse comercial americano no acordo, mencionando a Westinghouse como principal empresa envolvida no programa nuclear civil dos Estados Unidos.
Lourival concluiu que o acordo representa uma espécie de "caixa de Pandora" sendo aberta, ao avaliar que o texto, sem o padrão-ouro e sem impedir o enriquecimento de urânio ou o reprocessamento de plutônio, abre caminho para riscos de proliferação nuclear na região.


